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DESABAFOS

Sou aquela peça imperfeita que não completa o puzzle.

Sou aquela peça imperfeita que não completa o puzzle.

DESABAFOS

28
Nov22

PAUSA PARA UM CAFÉ...


ROMI

A frase "vamos tomar um café" tornou-se banal. Um acto de socialização bem aceite e que faz sentido praticar até com quem mal conhecemos ou acabámos de conhecer. Tomar um cafézinho é o mote para estabelecer uma relação, ainda que breve. Há dias, chovia torrencialmente, dei abrigo, no meu minúsculo chapéu de chuva, a um senhor que estava completamente desprotegido de artefactos impermeáveis. Rimos imenso, conversámos o possível e atravessámos estradas com a água pelo tornozelo. Encharcados os dois, na cumplicidade ímpar de quem sabe que o chapéu de chuva não serve de nada quando um dilúvio desaba sobre nós. Passar por isso sozinha seria uma maçada, partilhar a situação com um estranho foi um alívio. Chegados ao destino, estação de comboios, o inevitável convite: "Vamos tomar um café?"- Podia ter-me pedido em casamento, convidar-me para uma viagem à volta do mundo, podia ter-me até convidado, num plano mais radical, surfarmos a onda da Nazaré. Mas não! Convidou-me para um café. Tomar um café é coisa séria, não se faz por dá cá aquela palha. Não se toma um café encharcado e à pressa, quando se espera um comboio. Tomar um café obedece a um ritual e preceitos que não estavam reunidos na altura. É banal tomar um café só porque sim, mas o café que realmente nos aquece, baseia-se, simbolicamente, no pacto de estabelecer laços. Ou de dar continuidade a laços estabelecidos.  É um compromisso.

Façam-se 60 segundos de silêncio pelos cafés desperdiçados. Em penitência vou optar por um chá com banha oxidada como em Ulan Bator.  
 

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27
Nov22

HÁBITOS E TIQUES...


ROMI

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Quando estou a ler um livro, gosto de ter uma esferográfica por perto, para de certa forma interagir com o autor, seja para sublinhar frases, dar raspanetes, dizer que o amo, enfim, coisinhas banais mas de que não abdico. Sim, eu sou das que riscam  livros. Acresce a esse hábito que a esferográfica seja da cor da capa. Quando me oferecem um livro, com a  esferográfica correspondente à cor da capa do livro, é dupla surpresa. Pequenos gestos, mas que me fazem  feliz...

26
Nov22

LAMENTOS...


ROMI

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Apesar da ausência continuas presente. Momentos  marcantes  contigo passados. 
Foste meu confidente, companheiro e amigo. Só fingias zangar-te quando íamos à caça ou à pesca e eu me encarregava de espantar tudo o que mexesse. Depois prometia não repetir e apesar de saberes que não ia cumprir a promessa, davas mais uma oportunidade. 
Que saudades desse tempo! Dos intermináveis passeios de mota, dos petiscos e gargalhadas à lareira … 
Depois resolveste trocar-me por uma senhora vestida de preto. Ainda hoje não consigo chorar! Foi tanto o que perdeu a oportunidade de acontecer. Reverti-me a um silêncio vestido de luto. Lembro que suspendi a dor  e num sorriso pálido, com o olhar oculto pelos óculos escuros, limitei-me, impotente, a ver-te partir. Feliz quem podia chorar o que lhe apetecesse! 

Sem ti o mundo tornou-se num lugar menor! 
Descansa em paz, Paizinho…

 
O meu pai à lareira a fumar cachimbo, na mão um copo de whisky . Imagem de inverno, o ritual das onze da manhã. A "Granada", que hoje ouço em forma de lamento, emanava do disco de vinil. 
Tudo vai desaparecendo… até as emoções. Mas há imagens que nos ficam e tão exactas como se respirassem. 
Estava habituada a sabê-lo vivo e queria que assim continuasse. 

 

 
21
Nov22

BANALIDADES...


ROMI

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Saio do comboio, pasta do computador e um saquinho com gulodices numa mão, mala ao ombro, chapéu de chuva na outra. Em dias de chuva é um desassossego, tenho sempre mais pertences que mãos para os segurar. A mudança da hora faz as tardes  mais escuras e até está a chover, decido apanhar um táxi. Isso implica ir ao multibanco. Outro desassossego, equilibrar os pertences e descobrir a carteira na mala caótica. Esforço inglório, até a caixa multibanco parece zombar da minha figura. Em vez de desistir e ir feita Madalena arrependida para casa, tenho a ideia peregrina de ir beber um café. Devidamente sentada, mãozinhas livres para procurar a agulha no palheiro. É-me servido o café e das profundezas da mala nem sinal de carteira. Deve ter ficado na loja das gulodices. Com uma divida às costas, o café, explico a situação ao senhor. Ofereço-me para lavar umas quantas chávenas, em alternativa pagar no dia seguinte. 

A chuva entretanto intensificou. Alguns carros na praça de táxis, e a caixa multibanco com ar de gozo a piscar-me o olho. Do mal o menos, a chave de casa está, como de costume, no bolso exterior da mala do computador. Nunca vou saber como, mas a carteira foragida também... 


Isto deixou-me triste, foi o culminar de um dia que até nem tinha corrido muito bem. Aquela vontade imensa de me sentar no chão, escondida atrás da porta, como fazia em miúda. Depois senti-me envergonhada com este sentimento. O que me aconteceu?- Nada. Tanta coisa a acontecer no mundo, e eu a queixar-me de um episódio banal, caricato até. Troco o canto da porta por um banho de espuma e salvo-me... 

imagem roubada algures (pinterest)

19
Nov22

"O CIO DAS MANHÃS"...


ROMI

Mais um grande escritor que conheci por aqui. António Garcia Barreto, autor de várias obras, a mais recente " Querubim o Filho da Puta", que ainda não li, mas já está encomendado. 

"O Cio das Manhãs", relido. Recomendo mesmo.

 

A Educação do Verso

"Na rua alinhada pelos meus passos
vai um homem a domesticar palavras
num silêncio de capela
Ao fundo da rua
num clarão de azul e ouro
solta-se o poema
carregado de imperfeições
Agora só falta
ensinar-lhe o caminho de regresso
e educá-lo verso a verso"   

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foto do meu album "livros que gosto"

17
Nov22

A CASA DA ALDEIA...


ROMI

Não me imagino a viver na casa da aldeia, nem gosto de ir à aldeia. Deprime-me. Não gosto de acordar com os passarinhos, nem de adormecer com o irritante do grilo. Gosto de passarinhos e grilos, mas caladinhos. O que eu gosto mesmo é das osgas que habitam o anexo, a que chamo a casa do lume. E na casa do lume, verão ou inverno, há sempre uma ou duas osgas. 
Depois há o senhor que trata das parreiras e fica com as uvas, teima sempre em dar-me um garrafão de vinho. Só aceito a garrafa de bagaço. Pasme-se, gosto de bagaço. Depois há o senhor que trata das oliveiras, lá rejeito eu o garrafão de azeite. Mas gosto desta dinâmica da aldeia, de tratar do que é dos outros e apesar de  raramente lá ir , tem tudo um ar muito cuidado, como se a minha avó ainda respirasse. 
Estive há pouco tempo na casa da aldeia, há assuntos que só eu posso tratar e há situações recorrentes; A minha avó deitava-se muito cedo. Eu ficava na casa do lume, sozinha,  num serão que se alongava. Adoro serões. Quando regressava à casa "grande", tinha todo o cuidado ao abrir e fechar da porta. Todo o ruído em suspenso, até ao deitar, para não a acordar.
Passaram tantos anos e sempre que lá vou, dou por mim silenciosa, quase em apneia, até que acordam os pensamentos e me lembram, podes fazer barulho, ela já cá não está... 
 

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15069069_1289065324458365_886860052732878215_o.jpg Imagens do meu album A casa da Aldeia

14
Nov22

NÓMADA...


ROMI

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Ressuscitar é inverter as leis do silêncio. Detesto os que ressuscitam. Não que seja fácil ressuscitar, pela quase obrigação moral de explicar o motivo que  levou ao falecimento.  Eu, morri só porque sim. Apeteceu-me, foi um ar que me faltou.

Foram depositadas flores (comentários) e passagens silenciosas para confirmar se eram cuidadas. Não foram criadas condições para descansar em paz. E aqui estou eu, na qualidade de fantasma lamechas, para agradecer todas as flores, todas as pegadas, negligenciando a homenagem póstuma. 
Que sensação estranha, sinto que já não pertenço aqui. Nem me sinto a filha pródiga. Sinto-me um paraquedista a aterrar em chão alheio. Olho para estes "Desabafos" como se não fossem meus. E este que não é, sinto-o como se fosse. Mas é do Vinicius. 
 

Soneto de separação

"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente."

Vinicius de Moraes 
imagem pinterest
25
Set22

EPITÁFIO DE UM SERÃO...


ROMI

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"Vamos morrer, mas somos sensatos,
e à noite, debaixo da cama,
deixamos, simétricos e exactos,
o medo e os sapatos."  (
Pedro Mexia, "Senhor Fantasma")

 

Uma luz mortiça, lembrando um candeeiro a petróleo, sobressai numa janela distante, como se fosse um farol. Uma brisa envergonhada trespassa a portada entreaberta e quase me gela. Não a fecho. Borboletas de asa curta fazem a dança das bruxas ao redor do único ponto de luz existente, quase colado ao tecto. O som de várias persianas a fechar, como se secretamente houvesse uma hora definida para o fazer. Um cão ladra ao longe. Efeito Pavlov, sinfonia canina. Depois calam-se. Nascem sombras nas fachadas dos prédios, lembrando rabiscos em abstrato na tela de um pintor. Um ponto incandescente surge na varanda  em frente. Os espiões não fumam no escuro. Não se ouvem vozes, não há silêncio absoluto. Sons indecifráveis vagueiam, como fantasmas tristes,  e perturbam o sigilo da noite. Que está fria. Que está quieta. Que está mais deserta do que eu. Fecho a portada. Não apago a luz. Deixo as borboletas  cumprirem as suas funções de bailarinas. E vou dormir. 

Debaixo da cama, deixo simétricos e exactos, o medo, os sonhos e os sapatos. 

Foto do meu album "Noturnos".

 

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