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A hospedeira insistia para que eu pusesse a mala de mão debaixo do assento. Eu acenava que sim, mas continuava com ela no colo. Nem sequer era para a contrariar, nem eu conseguia perceber por que raio não lhe obedecia. Qualquer entendido justificaria com o facto de ser a primeira vez que andava de avião e os tais nervos, que servem de desculpa para tudo, seriam a desculpa. Mas não me sentia minimamente nervosa, nem eufórica, nem nada. Estava ali, tranquila, agarrada à minha malinha, enquanto ela, a hospedeira, numa ginástica maluca, explicava as medidas de segurança a adotar. Felizmente não foi preciso pô-las em prática, porque eu não tinha percebido nada daquela sinalética.
Aeroporto Vincenzo Bellini Catania-Fontanarossa. Mais conhecido como Aeroporto di Fontanarossa. Dada a proximidade com o vulcão Etna, havia a possibilidade de haver alterações na rota, devido às cinzas vulcânicas, caso se encontre em erupção. Estava calmo e tranquilo, como eu.
Apanhei um autocarro (Alibus) para Catânia, a viagem foi rápida e bonita. A minha malinha sempre no meu colo, como convém. E eu agarrada a ela. A apertá-la com força, a mão quase dormente, uma dor desconfortável no braço, mas não conseguia aliviar a pressão. Não estava nervosa, não me sentia nervosa.
Em miúda, sempre que dormia com o meu ursinho, não tinha medo do escuro. A minha mala, uma espécie de urso, catalisadora da minha energia, proporcionando o equilíbrio, sugando a insegurança de quem viaja sozinha e anda de avião pela primeira vez. Percebi que um simples objecto pode dar-nos a mão. Nessa noite, também não tive medo do escuro.
Passei a viajar sozinha, por não ter medo do escuro...