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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

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DESABAFOS

27
Out21

MEMÓRIAS : EXCENTRICIDADES DA MINHA MADRASTA


ROMI

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(...) Uma vez, para substituir o meu pai, que devido a compromissos não pode estar comigo na habitual quinta feira, a minha madrasta levou-me à praia. Vamos ver o mar, podia ter dito, mas não disse. Conduziu-me ao carro, pos música que fez questão de acompanhar, trauteando desafinada. Parou numa praia deserta. Correu para o mar, numa coreografia estranha, desencontrada de algo que queria ser uma canção e não passavam de guinchos histéricos. Mas ela estava feliz. Eu, num misto de estupefacta e assustada, assistia estática, mas com uma vontade enorme de a imitar. Claro que não me atrevi. Era louca o suficiente para me atirar ao mar. Ou, quiçá, para bailar comigo, aquela dança frenética que só os seres livres se atrevem a executar. Naquele momento admirei  imenso aquela mulher. Acho, até, que senti inveja. Mas quando fosse grande não queria ser como ela. Dava medo ser como ela. Só pessoas como ela conseguiam ser como ela e ela era única.

No instante seguinte, estava de joelhos e de braços abertos, a receber as ondas do mar que a encharcavam, num vai vem continuo e ela já não gritava. Devia estar de olhos fechados, cabeça atirada para trás, talvez à espera que uma onda a levasse. Como não levou, levanta-se e encara-me, como se fosse eu o bicho raro. Encharcada, ela, rumámos a casa. Desta feita em silencio, como se meditasse.

Dei por mim a desejar que aquele dia se repetisse. Como que para confirmar se aquilo era um ritual ou foi um acto espontaneo. E um dia pedi-lhe que me levasse ao mar. Como resposta, passa-me um buzio, enorme, para a mão e pede que o encoste ao ouvido e que ouviria o mar. No entender dela era a mesma coisa. Ainda hoje conservo o búzio. Em noites de insónia, ou quando tenho saudades do mar, encosto-o ao ouvido e ou adormeço ou parece que estou no mar. É quase a mesma coisa, tento convencer-me. É a memória mais bonita que guardo da minha madrasta.

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