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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

08
Nov25

Coisas da Aidinha...


ROMI

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A Aidinha entra em pânico quando não atendo a chamada. Pensa sempre que me aconteceu algo e o sentimento de impotência por estar agora a largos quilómetros de distância, sem ter a quem ligar para saber de mim, deixa-a em sobressalto. Claro que não tem, e vai continuar a não ter, porque, na verdade, ninguém sabe de mim. Ligue para quem ligar.

Ontem fez-me um ultimato: ou lhe dava um número a quem telefonar, ou, da próxima vez, chamava os bombeiros. Eu acredito que é bem capaz de o fazer, e de se meter num táxi, desvairada, a caminho daqui, a dar instruções ao motorista como se fosse uma operação de resgate. Claro que não cedi à chantagem. Um bombeiro fora de horas até nem me parece mal. Força Aidinha, liga aos bombeiros, de preferencia aos do calendário 2026.

imagem tirada na minha sala (quer dizer... ao ecrã da minha televisão).

06
Nov25

O Sossego das Cores...


ROMI

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As cores desmaiam com a delicadeza que só as coisas cansadas sabem ter.
O mundo, exausto, quer retirar-se em silêncio. Há um rumor leve no ar, o último fôlego de um dia que persiste, teima em não querer partir. As sombras alongam-se devagar, tocam os muros, os rostos, as memórias. Tudo parece suspenso entre o ainda e o já não, entre o que foi e o que se despede sem alarde.
O tempo abranda, perde a pressa de existir. As vozes tornam-se ecos distantes, dissolvidos numa névoa húmida. Levanta-se o vento, que recusa ser pintado em repouso. Nesse instante quase imóvel, o ocaso, esbatido, parece adormecer dentro de si, embalado pela própria exaustão.
Esvai-se o dia, cansado. As cores começam a desbotar, transformando o mundo num esboço a carvão.
02
Nov25

Fragmentos de Luz...


ROMI

 

Escrito aos treze anos, este texto nasceu de uma noite em que o céu parecia guardar segredos que me pertenciam. Faltava uma estrela, a mais luminosa, e dessa ausência nasceu o desejo de compreender o que brilha e o que se apaga. Desde então, aprendi com as estrelas cadentes que a queda, por muito que nos custe, é sempre iminente. O melhor é deixar ir, render-se à beleza breve do instante antes de desaparecer. 

Resgatado da gaveta, hesitei em publicar este esboço de um imaginário que viria a persistir, quase um protótipo de desabafo.  

 

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Quando o dia se tingiu de negro, procurei-te. Uma luz difusa acenou-me, eras tu. Para quê pontos de referência a orientar-me, se primeiro que eu descobres-me tu? Não és a maior, és a mais brilhante. Sobressais entre as outras. Talvez o motivo esteja nesse raio fugaz que lanças e me atinge quando, num sussurro, pronuncio a palavra "amo-te". E amo.Tu, não és uma estrela. Pertences a um planeta cujo nome ainda não foi inventado. És a luz de um corpo decomposto pela Terra. És vítima de um Mago ciumento. Mas não és uma estrela. Hás de visitar a Terra. Hás de encarnar num corpo. Hás de quebrar a magia.
Naquele fim de dia tingido de negro, procurei-te. Uma luz insípida, uma luz apagada, uma luz trocista, uma luz arrogante... milhares de luzes cruéis ignoraram-me. Aquela luz brilhante não me acenou. Não me lançou um raio fugaz. Não me procurou.
Os pontos de referência falharam. Apontaram uma daquelas luzes insignificantes, inúteis, que antes designei.
E eu, abandonada, traída, chorei. Olhei o céu que se transformou em caos. Uma nuvem negra toldou aquelas estrelas insignificantes. Relâmpagos trovejantes rasgaram o mesmo toldo e grossas gotas de água desprenderam-se, desabando impiedosamente numa tempestade de som e fúria.
Chorei, abandonada, traída. Sussurrei a palavra amo-te. Gritei a palavra "amo-te". Um raio fulminou-me, reduziu-me a pó. Aquele extraterrestre passou, olhou-me e não me viu. A morte passou, olhou-me e viu que eu nem alma tinha. O Mago passou e escoou entre os dedos o pó que estava ali mesmo, pertinho de mim.
Um vento ciclónico acolheu-me, elevando-me no ar, rumo ao céu. Uma luz de esperança nasceu em mim e transformou-se (transformou-me), numa daquelas estrelas insípidas, insignificantes, ignoradas por ti.
 

Foto tirada por mim no evento "Meet Vincent Van Gogh"

 

 

 

31
Out25

Retrato de um serão...


ROMI

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Às vezes, onde estou é mesmo onde queria estar.
Às vezes, gostava de poder sair de mim e observar-me lá do alto, tentar absorver o momento, eternizá-lo, para poder voltar a ele sempre que quisesse, em doses suaves, e sentir inveja de mim.
Ver-me a ler à luz de um candeeiro, quase a petróleo, com uma música de fundo fantástica. Uma chávena de chá fumegante. Um caderno de notas escrito com caneta de aparo fino. Rodeada de uma escuridão imensa, como convém em qualquer serão digno desse nome.
Lá fora, a chuva bate  na vidraça, como que a querer entrar à força, para se juntar a nós: a mim, a protagonista, e a mim, lá no alto, a observar-me, invejosa.
 
E nesse instante suspenso, em que tudo parece caber dentro de um suspiro, sinto que não preciso de mais nada. Apenas existir ali, inteira, entre o som da chuva e a companhia da minha própria solidão, que não pesa, mas envolve, como o calor de uma presença breve.
Enquanto me observo, sei que o momento se desfaz, devagar, silenciosamente, como o vapor do chá que sobe e se perde no escuro, ao ritmo do meu pensamento. E em tom de adeus...
 
 

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28
Out25

J’aime, J’adore e Outras Economias...


ROMI

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Secção de perfumes de um hipermercado. Na prateleira, e descaradamente, um perfume dizia-me em letras douradas: Je T’aime.
Haja alguém, pensei. E trouxe-o comigo.
No processo reparei que afinal dizia J’aime. Ainda hesitei, mas não o devolvi. Nem vi ao que cheirava; pelo preço, desde que servisse “para dormir” (eu sei, há quem durma com pessoas), eu gosto de dormir perfumada.
Só em casa reparei no jogo de palavras: o meu perfume de sempre é o J’adore. J’adore / J’aime.
E o que os difere são cento e tal euros.
Portanto, vou dar uma de influencer barata: estimados consumidores, o J’aime pode não ter o glamour do J’adore, mas tem o mesmo cheiro, que perdura, e é escandalosamente mais barato.

 

Nota: a primeira imagem é de minha autoria; as seguintes é uma captura de ecrã de pesquisa no Google (outubro de 2025), onde o preço dos produtos é visível.

 

26
Out25

Mudança de horas e outras teimosias...


ROMI

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Não gosto de horas.
Não gosto de horas mortas, de horas que não são horas, de horas de ponta, horas extra, hora marcada, hora da verdade, mudança de hora e hora H.
É um privilégio ter apenas um horário a cumprir, quatro dias por semana. Não tenho “horas” para mais nada. Deito-me quando tenho sono, levanto-me quando acordo e como quando tenho fome.
Hoje almocei por volta das onze e levantei-me às quatro da manhã. Sou mais resistente ao jet lag das viagens do que ao da mudança de hora. Habituada que estou a ignorar o relógio, rapidamente o meu relógio biológico se vai adaptar.
Reconheço o paradoxo de não gostar de horas e adorar relógios. Podia gostar de malas, de sapatos, sei lá. Mas gosto de relógios, preferencialmente parados. O horror que seria ter de os acertar todos sempre que a hora muda.
Talvez seja isso que me fascina neles: a sensação quase física de poder deter o tempo, de o sentir parar comigo, decidir quando é a minha vez de não o seguir. O "agora" suspenso.

O meu verdadeiro tempo, é aquele que eu mesma me dou.

25
Out25

Falácias e Chocolate Quente...


ROMI

 

Se viveria num país tropical? Sem hesitar, sim, sempre.
Mas não deixo de ter um certo apreço por estes dias cinzentos, de chuva fina. Sem vento.
Não gosto do vento, na mesma proporção em que ele não gosta de mim. A nossa relação é de mútua e fria indiferença. Pode considerar-se esta afirmação uma falácia patética, admito. Um erro de lógica que atribui sentimentos a algo inanimado. Mas eu e as falácias convivemos bem. E eu sei sempre quem gosta, ou não, de mim: sejam animais, coisas, pessoas, estados meteorológicos, meses, dias, horas ou segundos. Um eco que me sussurra "bem-vindo", ou uma sombra me adverte: "passa à frente.” E eu obedeço.

Hoje, chove como eu gosto: sem frio e sem vento. Saí para a rua, toda eu sorrisos, debaixo daquela chuva que molha parvos. E molhou-me a mim.
De volta a casa, preparei um chocolate quente, pus Tom Waits  a cantar baixinho e abri um livro. A chuva, lá fora, acompanhava o som da voz e o virar das páginas. E, por um breve instante, senti que o mundo inteiro respirava comigo.

22
Out25

Reincidência Inevitável...


ROMI

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O meu pensamento, um simulacro de palavras, vítimas de atropelamento e fuga. Espalham-se em contramão, inconscientes, como fragmentos de um puzzle de conclusão aleatória. Num alfabeto de esperança que se basta, como uma eremita urbana, era urgente terem morrido na véspera.
Salto alto, saudade negligente, que desfila como vírgulas em ponto de espera para ser ponto e vírgula e é apenas exclamação. Afasto o cabelo em desdém como quem apaga no papel, as palavras sinistradas, proibidas de formar pensamentos.
Num último suspiro, falam-me de coisas que nunca disse, de memórias que talvez não sejam minhas. Arrastam-se, tropeçam umas nas outras, até se confundirem com o pó do léxico. Às vezes penso que são elas que me pensam, que a minha mente é apenas o cenário do seu acidente.
E eu fico aqui, entre o rescaldo e a tentativa, a observar o trânsito caótico das ideias, na esperança de que alguma palavra, intacta, numa amnésia improvisada, não saiba o caminho de volta.
Não podem sobreviver, era urgente terem morrido na véspera.

  

 

17
Out25

Outono em duas paragens...


ROMI

 

 

 

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Da janela do comboio,
as estações avançam lentas,
como um outono tardio.
A paisagem recusa vestir-se
com pinceladas de ouro gasto.
O comboio não apita
a anunciar a estação seguinte.

Pouca terra… pouca terra…

As janelas tornam-se espelhos
onde o outono se penteia.
Espelhos. O olhar de quem observa
e é observado.
E eu, aqui ...
sou a paisagem que passa,
a passageira que fica.

Outono
Cada folha no chão é uma carta
que o verão esqueceu de enviar.
Dentro de mim, as estações também mudam,
devagar, e sempre um pouco tarde.

Pouca terra… pouca terra…

E o outono é a estação seguinte,
sem ninguém à minha espera.
Santa Apolónia ficou para trás.


E assim, entre paragens e outonos tardios,  cada estação, do ano ou do comboio, chega sempre, mesmo quando ninguém nos espera...

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