A Gala dos Defuntos...
ROMI
Não vou entrar em pormenores, mas só uso pijama no Natal ou quando estou amarfanhada no sofá, em domingos e feriados. Há dias, aproveitei um saldo e comprei um pijama de cetim: preto, debruado a branco, coisa mailinda. Achei que ficaria perfeito numa festa com dress code… mas eu não vou a essas festas. Homens de fato e gravata, senhoras de vestidos longos com pedrinhas e brilhantes. E foi aí que um pensamento levou a outro: como se também obedecessem a um dress code, os defuntos e defuntas, no eterno descanso e até à última morada, apresentam-se invariavelmente de traje de gala.
Que desperdício, que desconforto e, sobretudo, desoladora falta de bom senso. Para quê tanto protocolo para o sono eterno? Não seria muito mais lógico e confortável um pijaminha, de flanela, de seda, de algodão, conforme o gosto do falecido, do que esse formalismo todo para descansar em paz?
Por isso, já deixo a minha vontade expressa. Quando chegar a minha vez, recuso blazers, folhos e saltos altos. Deixem-me com o meu pijaminha de cetim, as minhas pantufas quentinhas e o meu urso de peluche. Afinal, se a eternidade é um descanso, que se cumpra com o máximo conforto.
No cemitério, à hora em que a lua se deita sobre os túmulos, inicia-se um baile inesperado. Uma defunta de pijama de cetim negro segura um urso de peluche como parceiro de dança. Primeiro, os outros observam, incrédulos. Um senhor de fraque engomado ajeita a gravata. Uma dama de rendas pesadas ergue a sobrancelha. Mas logo o insólito contagia: um par de sapatos de verniz abandona-se ao ritmo, um véu antigo rodopia como cortina ao vento, e até um bigode póstumo se arrepia de entusiasmo.
Entre saltos desengonçados, pantufas felpudas e gargalhadas abafadas, os defuntos descobrem que a eternidade pode ser irreverente e não precisa de dress code.
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