As mão dela...
ROMI
Salvou-se como se padecesse de uma doença terminal e, no espanto da cura, a atribuiu a um milagre. Salvou-se, lavou as mãos para limpar o contacto da mão dela na sua e o cheiro do creme barato comprado na drogaria do Aníbal, que faz esquina com o bar onde, em tempos, timbraram o seu amor, servido em chávena quente, fumegante, aroma a café, moagem fina, Lote Barista. Ficou livre como um pássaro de inverno, que não pia nem suspira, mas ainda tem asas. Tristão sem Isolda, Romeu sem Julieta, história em branco de um casal que Shakespeare, em drama de som e fúria, significando nada, é a vida, não chegou a registar. Salvou-se, por milagre, de ser eternizado em literatura de cordel, em modo Corín Tellado como a madrasta dela gostava.
Alívio. O que fica escrito é para sempre e não pode ser apagado, nem com a parte azul da borracha que rasga o papel para apagar a tinta. Um-dó-li-tá, quem está livre, livre está. Ele está. A aritmética do desamor é simples: menos com menos dá mais, mais com mais dá mais, menos com mais dá menos e mais com menos dá menos. Menos dois. Menos um par. Como as meias, que são aos pares. Ele não.
Salvou-se por milagre da Senhora da Montanha, em Cáceres, onde fizeram juras eternas, válidas enquanto durou o amor. A Senhora da Montanha libertou-o. Sem pulseira eletrónica. Sem anel de noivado. Salvo, libertação total: burocrática, administrativa e emocional. Como a novela Turca que passa em horário nobre numa televisão qualquer.
Salvou-se. Mas a salvação veio sem testemunhas, sem arroz e pétalas brancas à saída da igreja. Não houve aplauso nem relato para repetir. Ficou só com o eco dos próprios passos, a casa demasiado grande e a mesa posta para um menu de silêncios e memórias para brindar em flute de champanhe, barato, sem bolinhas efervescentes que explodem no nariz. A solidão vicia com a prática, diz o anúncio do centro de meditação e reabilitação do Arieiro. Aprendeu a silenciar, a não partilhar frases a meio, a não esperar resposta e a tentar adivinhar o que dizem os vizinhos, com o ouvido colado a paredes meias, só para ouvir uma voz que não a sua. As noites tornaram-se um exercício de resistência, não por saudade declarada, mas pela ausência de partilha. Dormir na cama grande que não aquece em conchinha, nem ronrona como um gato mimado que aguarda saquetas Gourmet.
Salvou-se, sim. Mas foi condenado a esse silêncio difícil, onde ninguém o prende e ninguém o chama, ninguém o larga. A liberdade revelou-se um espaço vazio que não adiciona. Aprende-se devagar a viver nela. Como a ladainha da rolha da garrafa do rei, pinga a pipa, pia o pinto. Sozinho, como ele, que arrefece o silêncio servido em chávena quente, no bar que faz esquina com a drogaria do Aníbal, onde compra o creme barato para ficar com as mãos a cheirar às mãos dela.
