24
Ago23
EU MÁZINHA ME CONFESSO...
ROMI
Aproveito as férias para comer qualquer coisa de jeito, já que não sou eu a cozinhar. O almoço é sempre uma coisinha leve, desforro-me ao jantar. E fui jantar à Taberna d'Adélia, na Nazaré. Chamou-me a atenção uma placa a dizer que tinha sido, mais uma vez, proposto para uma estrela Michelin.
Nessa noite até estava arrumadinha, não propriamente em chique, mas com o meu ar desgrenhado muito bem disfarçado, nada de botinha da tropa e isso. O senhor que me atendeu, muito cordial. Entradas, o peixe frito com arroz de tomate, a sobremesa, uma delícia. Chegam mais comensais, o senhor cordial não tem mãos a medir e calha-me na rifa, para o substituir, uma criatura armada em esperta, a fazer gracinhas por eu não ter comido tudo e outras coisas do género, tomado de uma confiança que eu não lhe tinha dado. Foi deveras desconfortável. Mas o pior estava para vir. Quando me serve o café, atira bem disposto, como se fosse o concurso da melhor piada do ano e esperasse receber o prémio em gargalhadas. Diz ele: aqui está o café para a "ti Maria". Gelei. Quando traz a conta, repara que não toquei no café. Disse-lhe, com voz impessoal, que ele se tinha enganado, aquele café não seria para mim, já que não havia ali nenhuma "ti Maria", apesar de o tratamento parecer muito íntimo, tinha-se enganado na pessoa.
Não sei o que ele disse a seguir, já não o ouvia. Sei que o olhei fixamente, imaginei-o deitado, ... calçado, ...vestido de fato e gravata, ...as mãos cruzadas sobre o peito, ...em posição de morto. ![]()
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Depois saí, já bem disposta, tal cinderella, cuidando não deixar o sapatinho para trás. Não havia nenhum príncipe para o devolver, só sapos...


