O Carteiro de Pablo Neruda...
ROMI

O epílogo de um livro é como o epitáfio na campa de um defunto. Ambos são marcadores finais. Tive esta percepção quando cheguei ao epílogo do livro O Carteiro de Pablo Neruda, de Antonio Skármeta.
Já aqui manifestei o meu hábito de ler mais do que um livro em simultâneo. O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, é uma obra que resiste ao conceito tradicional de “terminar”, pois a sua estrutura permite uma leitura intermitente, ideal para leitores como eu. Não sei quantos livros já li, mantendo à distância o final do Desassossego. É um livro que vai deixar saudades. É a minha forma de evitar o epitáfio, de lhe prolongar a vida.
O Carteiro de Pablo Neruda tem, em doses suaves, tudo o que aprecio num livro. Mistura realidade e ficção, numa escrita limpa, elegante e quase poética. Há uma passagem icónica que me fascinou: a descrição do som das ondas do mar, do vento e das gaivotas que Mario gravou para que Neruda, em França, matasse saudades dos sons da Ilha Negra. É de uma beleza pura. Sei que voltarei a esse momento várias vezes. Li o livro e vi o filme, mas, como quase sempre, o livro supera o filme.
P.S. Eu pensava que o livro se chamava “O Carteiro" e era escrito por Pablo Neruda. Apesar de estar há uns tempos à espera de ser lido, foi uma surpresa ver que estava enganada.
