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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

28
Jul25

"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas." (II)


ROMI

 

Bateu à porta levemente, deu-me a correspondência em mãos e perguntou:
Estás a chorar?

Não é pergunta que se faça. Pessoas como eu são demasiado cobardes para chorar. Chorar é para os fortes.
Nós, os cobardes, temos conjuntivite, alergia, um cisco no olho... nunca são lágrimas.

Nem lhe respondi. Se dissesse a verdade, teria de confessar mais do que lágrimas. Despachei-o com um aceno, e ele continuou a distribuir a correspondência pelos vários gabinetes.

Não éramos colegas. Várias firmas tinham escritórios alugados no mesmo espaço: um andar na zona do Marquês de Pombal. Por norma, ele, era o último a chegar, coincidindo com a hora do carteiro. Outras vezes, chegava tarde, e era eu a incumbida da tarefa. Havia espaço para uma breve troca de palavras. 

Não éramos amigos. Imperava a cordialidade, e só. Nunca aceitei o convite para tomar café. Evitar, a qualquer custo, criar laços.

E eu estava a chorar, sim. Porque era o meu último dia ali. Porque ia embora para um novo espaço, noutra localidade, ali tão perto e tão longe. Estava a chorar porque não sabia despedir-me. Porque despedir é um verbo que nunca aprendi a conjugar em voz alta.

Ele soube. Não sei como, mas soube. E no fim daquele dia, tentou apanhar-me na estação, como quem tenta apanhar uma última palavra antes de ela se perder no silêncio.

Mas o comboio já estava em andamento.
Nem acenei em adeus.
Vi-me refletida na janela. Na minha expressão podiam ler-se as palavras de Louis Calaferte:
Não me sacudam, que estou cheia de lágrimas.

 

 

 

08
Set22

ATÉ SEMPRE...


ROMI

abr.jpg 

Numa amnésia infinita de reencontro e despedida é num abraço que procuro a linha ténue que separa a sanidade da loucura.

Há abraços que perfumam... Há abraços que não se repetem... que ficam para trás, numa estação de comboio qualquer e apetece ir buscá-los.

Há abraços que são uma saudade imensa... que se escrevem com a palavra distancia. Há abraços que escorrem como se fossem lágrimas...

Há abraços em que me abraço e apresiono para não esquecer...

Foi num abraço que me perdi... num abraço de até já que eu traduzi até sempre...

Mas não chorei na despedida ... 

Continuo presa num tempo e num dia que tinha sido diferente dos outros. Nesse dia todos os que morreram foram para o céu e o mundo ficou da cor que eu gosto. 

imagem pinterest

 

08
Ago22

EM PASSO PLANEADO...


ROMI

Apertei os sapatos em ritmo de Adeus.
Parto em passo planado, com o sol em poente, reivindico uma gaivota triste como complemento de paisagem.
Só depois me afasto, sem carácter de urgência.
Vestida de preto, com salpicos de silêncio e um apontamento a designar,
levo nas mãos acenos gastos à força de tanto serem usados. Remeto-as à inercia!
Pela primeira vez não olho para trás num gesto póstumo.
Há "nós" e laços, há agora um projecto de consciência em ruína.
Atirei, como uma noiva, um ramo de crisântemos.
Lamento imenso se alguém o apanhou... 

"Ele foi sempre um mar de inverno, ela quis ser uma gaivota
de verão."

IMG_20191208_082336.jpg Foto by me

     

19
Mai22

VANGELIS...


ROMI

      

Vangelis, nos momentos em que não me apetece pensar. A música a fluir eu a deixar-me ir. Vangelis, para me ajudar a serenar, devolver alguma lucidez. Uma fonte de inspiração também, na escrita, devo-lhe tantas palavras.
Partiu, a obra fica. Fica também a saudade imensa.
 Obrigada. Daqui... até que!!!
 
"Aqueles que por obras valorozas se vão da lei da morte libertando"

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