"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas." (II)
ROMI
Bateu à porta levemente, deu-me a correspondência em mãos e perguntou:
Estás a chorar?
Não é pergunta que se faça. Pessoas como eu são demasiado cobardes para chorar. Chorar é para os fortes.
Nós, os cobardes, temos conjuntivite, alergia, um cisco no olho... nunca são lágrimas.
Nem lhe respondi. Se dissesse a verdade, teria de confessar mais do que lágrimas. Despachei-o com um aceno, e ele continuou a distribuir a correspondência pelos vários gabinetes.
Não éramos colegas. Várias firmas tinham escritórios alugados no mesmo espaço: um andar na zona do Marquês de Pombal. Por norma, ele, era o último a chegar, coincidindo com a hora do carteiro. Outras vezes, chegava tarde, e era eu a incumbida da tarefa. Havia espaço para uma breve troca de palavras.
Não éramos amigos. Imperava a cordialidade, e só. Nunca aceitei o convite para tomar café. Evitar, a qualquer custo, criar laços.
E eu estava a chorar, sim. Porque era o meu último dia ali. Porque ia embora para um novo espaço, noutra localidade, ali tão perto e tão longe. Estava a chorar porque não sabia despedir-me. Porque despedir é um verbo que nunca aprendi a conjugar em voz alta.
Ele soube. Não sei como, mas soube. E no fim daquele dia, tentou apanhar-me na estação, como quem tenta apanhar uma última palavra antes de ela se perder no silêncio.
Mas o comboio já estava em andamento.
Nem acenei em adeus.
Vi-me refletida na janela. Na minha expressão podiam ler-se as palavras de Louis Calaferte:
Não me sacudam, que estou cheia de lágrimas.
