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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

08
Jan26

As mão dela...


ROMI

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Salvou-se como se padecesse de uma doença terminal e, no espanto da cura, a atribuiu a um milagre. Salvou-se, lavou as mãos para limpar o contacto da mão dela na sua e o cheiro do creme barato comprado na drogaria do Aníbal, que faz esquina com o bar onde, em tempos, timbraram o seu amor, servido em chávena quente, fumegante, aroma a café, moagem fina, Lote Barista. Ficou livre como um pássaro de inverno, que não pia nem suspira, mas ainda tem asas. Tristão sem Isolda, Romeu sem Julieta, história em branco de um casal que Shakespeare, em drama de som e fúria, significando nada, é a vida, não chegou a registar. Salvou-se, por milagre, de ser eternizado em literatura de cordel, em modo Corín Tellado como a madrasta dela gostava.

Alívio. O que fica escrito é para sempre e não pode ser apagado, nem com a parte azul da borracha que rasga o papel para apagar a tinta. Um-dó-li-tá, quem está livre, livre está. Ele está. A aritmética do desamor é simples: menos com menos dá mais, mais com mais dá mais, menos com mais dá menos e mais com menos dá menos. Menos dois. Menos um par. Como as meias, que são aos pares. Ele não.

Salvou-se por milagre da Senhora da Montanha, em Cáceres, onde fizeram juras eternas, válidas enquanto durou o amor. A Senhora da Montanha libertou-o. Sem pulseira eletrónica. Sem anel de noivado. Salvo, libertação total: burocrática, administrativa e emocional. Como a novela Turca que passa em horário nobre numa televisão qualquer. 

Salvou-se. Mas a salvação veio sem testemunhas, sem arroz e pétalas brancas à saída da igreja. Não houve aplauso nem relato para repetir. Ficou só com o eco dos próprios passos, a casa demasiado grande e a mesa posta para um menu de silêncios e memórias para brindar em flute de champanhe, barato, sem bolinhas efervescentes que explodem no nariz. A solidão vicia com a prática, diz o anúncio do centro de meditação e reabilitação do Arieiro. Aprendeu a silenciar, a não partilhar frases a meio, a não esperar resposta e a tentar adivinhar o que dizem os vizinhos, com o ouvido colado a paredes meias, só para ouvir uma voz que não a sua. As noites tornaram-se um exercício de resistência, não por saudade declarada, mas pela ausência de partilha. Dormir na cama grande que não aquece em conchinha, nem ronrona como um gato mimado que aguarda saquetas Gourmet.

Salvou-se, sim. Mas foi condenado a esse silêncio difícil, onde ninguém o prende e ninguém o chama, ninguém o larga. A liberdade revelou-se um espaço vazio que não adiciona. Aprende-se devagar a viver nela. Como a ladainha da rolha da garrafa do rei, pinga a pipa, pia o pinto. Sozinho, como ele, que arrefece o silêncio servido em chávena quente, no bar que faz esquina com a drogaria do Aníbal, onde compra o creme barato para ficar com as mãos a cheirar às mãos dela.

 

07
Jan26

Sintaxe da Fuga…


ROMI

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Num esforço semântico
quis escrever
um poema de amor.

Completo.

Velas.
Flores.
Corações.

O fogo que arde sem se ver.
O contentamento descontente.

Mas, num impulso, o amor
rasga o papel.
Sai do poema.

Não por erro ortográfico,
nem por cansaço.

Foge do poema
para fugir de mim.

E o que fica
é o nó desfeito.

O papel vazio.
Um poema mutilado.

                                                                                                                                                                                                                                                                   

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03
Out25

Compasso de espera...


ROMI

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Ainda não passou um mês desde que a minha gata partiu, e já perdi a conta às vezes que me sugeriram adotar outra. Como se a sua ausência fosse um mero inconveniente: uma camisola que se rasgou, um sapato que descolou e urge substituir. Quem nunca criou uma relação verdadeira com um animal, quem nunca partilhou brincadeiras, afeto e rotinas, dificilmente compreende que a perda não é “só um gato”. É família. É a ausência de uma companhia que, durante quinze anos, fez parte da minha vida. A sugestão de “adotar logo outro” é fria, porque ignora o luto, a memória e o espaço que ainda está dolorosamente preenchido, o lugar que é dela. É uma ligação intemporal: não se apaga, não se substitui. Ninguém substitui um familiar que morre.

Os nossos animais não são objetos de estimação; são seres com quem partilhamos amor. Eu sei que não é por maldade; é antes uma forma de cuidado, uma tentativa de me oferecerem companhia no vazio que ficou. Um remendo, como se um novo afeto pudesse costurar de imediato a ausência.

Eu preciso de tempo. Tempo para honrar a vida que partilhei com a minha gata. A minha menina. A minha Luna. E, por agora, não me peçam: não teria capacidade para amar outra.

 

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17
Mai25

Para o Martin com amor ...


ROMI

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Martin era o meu gato. Desapareceu há dezoito anos. Não há luto para o inacabado. Nem persistência que resista ao compasso do tempo. Mas, sem luto, há um ciclo incompleto que não sei como fechar. E continuo a vê-lo por aí e sei que não é ele, porque não me vê a mim. E continuo a vê-lo em cada canção, em cada trecho, que tem a palavra "amigo". Continuo a resistir à resignação e ao adeus. O Martin não morreu no tempo, mas no silêncio. E esse silêncio continua a miar nas paredes da casa e no meu coração. Não é perda nem presença, apenas ausência sem forma.
 

 

 
"And all are bobbing heads in sync
And all have got a lot on their minds to think about
But you carry on in pictures and in song
And the unmade be you slept in
Where I laid you down to rest one last time
Goodbye, dear friend, goodbye, dear friend "
 

23
Jan25

A NETA DA MARIA...


ROMI

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Põe o lenço na cabeça, pega nas duas pontas, cruza-as atrás do pescoço, agilmente, e ata-as no cimo da cabeça. Lenço azul petróleo, com florinhas brancas, avental a condizer, que é domingo. Sai para a rua, bate a porta, fecha-a à chave, põe a chave debaixo do vaso dos manjericos. Vai pela vereda, para aproveitar a sombra. Segue ligeira, com a mão na cintura, a outra balança ao ritmo dos passos. Vai almoçar com a ti Xica, a comadre. Chegada ao destino, sem bater à porta, entra. A comadre recebe-a com um sorriso, diz-lhe que está adiantada, os grelos ainda estão ao lume. Responde que não tem muita fome, anda com uma dor nas cruzes, a filha quer que "lhe chegue" uma pomada, mas ela prefere ir ao Ti Gabão, o endireita. Foi ele que a curou da dor no ombro e nunca mais padeceu de tal mal. Entretanto, os grelos cozeram. Grelos com batatas e ovos cozidos. Servidos numa malga, empurrados com o pão para uma colher. Findo o repasto, pegaram num bloco de linhas, dois envelopes e dois selos. Saíram porta fora, com a ligeireza que a dor nas cruzes não travou. Já aguardavam 4 pessoas na soleira da casa da Maria, que tinha cá a neta e era ela que lhes escrevia as cartas, que começavam invariavelmente assim: " Querido(a) filho(a), cá recebi a tua carta, e nela vi tudo o que me mandaste dizer..."
Eu sou a neta da  Maria, não sei quantas cartas escrevi, asseguro que todas começaram assim ...

27
Nov24

Por falar de amor...


ROMI

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A Luna tem 14 anos. No ano passado, esteve muito doente. Acredito que não foram os medicamentos, foi o amor que a salvou. A dedicação, estar com ela noite e dia, não a deixar ir. Dar-lhe comida à boca, conversar com ela. Aos poucos, foi recuperando.

A dinâmica alterou-se: as travadinhas das três da manhã, em que corria pela casa toda, trepava paredes, depois acalmava e olhava-me, como se eu fosse o rebuliço, acabaram. Agora, está muito tranquila. Quer apenas comer e dormir. Não fica triste quando saio de casa e recebe-me à porta por hábito. Já não rebola feliz.

Mas hoje demorei. Estive mais tempo fora do que o habitual. E a velha Luna voltou. Não me largou. Voltou a subir para a cadeira só para estar ao pé de mim. Jantei com ela ao colo — e ela não gosta de colo. Agora, vou embrulhá-la na mantinha, esperar que adormeça. Esperar que me perdoe se por momentos se sentiu abandonada. 

 

IMG_20180206_093252.jpg Sem ela a minha vida era bem mais triste... 

20
Nov24

Amor, Água Benta e Outras Assombrações...


ROMI

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Estranhamente, todos estavam impecavelmente vestidos, como se fosse dia de festa. O senhor ao meu lado, um pouco pálido, não por acaso, claro, não deixava de ser um defunto jeitoso. Sempre fui sensível a um homem de fato. Morto ou vivo (fiquei a saber). Deduzi que fosse bastante popular dado o número de pessoas a chorar por ele. O problema de ter um velório partilhado era lidar com os pingos de água benta que os amigos do falecido faziam questão de dividir comigo.  Que os reservassem para ele! Já bastava estar morta, e ainda ter de passar por esta provação. 

Resolvi então sair de mim e vaguear pelo teto, espreitar os inconsoláveis  familiares do jeitoso lá de baixo. Cheguei a desafiá-lo para me acompanhar, mas ele, de nariz empinado, parecia demasiado compenetrado em absorver a dor dos herdeiros que entre uma lágrima e outra iam calculando o valor das partilhas.  E ainda dizem que, na morte, somos todos iguais. Ora, o enjoadinho, a dar-se a uns ares de superioridade, como se ignorasse por completo que já não era deste mundo.

Quando finalmente a família se retirou, a família dele, claro, eu tive direito a duas vizinhas e  três beatas lá do bairro, que saíram a toda a velocidade, após um Pai Nosso mal rezado, como se tivessem deixado o jantar ao lume. 

Ficámos nós dois, lado a lado. Ele a fingir que não estava lá. Eu mortinha por o provocar. Então, é assim que queres  passar para a eternidade? Deitado numa almofada de cetim, rodeado de flores murchas e um cheiro de velas que não inspira ninguém?

Olhou-me como se me tivesse visto pela primeira vez. 

-Tens uma ideia melhor?

 Este lugar é um tédio. Disse enquanto flutuava à sua frente.  Já pensaste em sair daqui? Há mais vida lá fora. Quer dizer, vida não é o termo certo, mas percebes onde quero chegar.

Ele hesitou, mas bastou um leve gesto para que largasse aquele cenário deprimente e viesse comigo. Saímos de mãos dadas pela porta principal, atravessando paredes como se fossem cortinas de fumo.

 

Foi assim que começou a nossa nova existência, assombrando alguém apenas por diversão. Soprar chapéus, esconder objetos. Rir da senhora que jurava ter visto as jarras mudarem de lugar sozinhas na biblioteca municipal.

Descobrimos que o mundo é muito mais interessante quando não há nada a perder.

E de assombração em assombração, fomos felizes eternamente… 

Eu disse fomos?

Somos! Assim é que é. 

 

16
Fev24

Behind the Candelabra: My Life with Liberace (filme)


ROMI

Uma declaração de amor. 

E quando um homem gosta de um homem o que se chama? 

- Chama-se amor...

 

 

 

 

 

"Porque te amo? Amo-te não apenas pelo que és, Mas pelo que eu sou quando estou contigo. Amo-te não apenas pelo que fizeste de ti mesmo, mas pelo que estás a fazer de mim. Amo-te por ignorares as possibilidades do tolo em mim, e por aceitares as possibilidades do bom em mim. Porque te amo? Amo-te por fechares os olhos às discordâncias em mim. E por acrescentares música em mim através da escuta reverente. Amo-te por me ajudares a construir da minha vida não uma taberna, mas um templo. Amo-te porque fizeste tanto para me fazer feliz. Fizeste-o sem uma palavra, sem um toque, sem um sinal Fizeste-o apenas sendo tu próprio. Talvez afinal, isso é o que o amor significa. E é por isso que te amo."

"Why do I love you? I love you not only for what you are, But for what I am when I'm with you I love you not only for what you have made of yourself, But for what you are making of me. I love you for ignoring the possibilities of the fool in me, And for accepting the possibilities of the good in me. Why do I love you? I love you for closing your eyes to the discords in me, And for adding to the music in me by worshipful listening. I love you for helping me to construct of my life Not a tavern but a temple I love you because you have done so much to make me happy. You have done it without a word, without a touch, without a sign You have done it by just being yourself Perhaps after all, that is what love means And that is why I love you."

25
Ago23

GATO ESCONDIDO ...


ROMI

Posso não ser a melhor dona do mundo. Mas tento. Em boa verdade, esta gata também não me facilita a vidinha. Hora de tomar o medicamento, vasculhar roupeiros, gavetas, até procurei dentro do frigorífico, já em desespero, claro. Escondidinha atrás dos livros....

Depois é o que se vê: 007 Ordem para espalhar pelo por tudo quanto é lado. 
 
Claro que ela é que é a minha dona, mas faz de conta que não sabemos. Tenham em atenção que as letras pequeninas não é suposto ler.
 
Nem tudo é mau, adora fazer uma sestinha na transportadora.   
Os gatos


Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos


Manuel António Pina
 

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