Olhares Cruzados ...
ROMI

No livro Tubarão 2000, de António Vitorino de Almeida, há uma passagem em que o protagonista é procurado pela polícia. Está num restaurante quando vê, na televisão, um apelo para que o encontrem. Descrevem a roupa que traz vestida, e a sua fisionomia com total precisão, o que o deixa preocupado. Respira de alívio quando o repórter acrescenta que o procurado, de fato castanho, é vesgo. Não sabendo que é vesgo, relaxa de imediato.
Apesar de toda a gente me dizer que não, eu acho que também sou, não diria vesga, mas ligeiramente estrábica. Há fotos em que isso é nítido; no espelho, nem tanto. Mas, vá-se lá saber porquê, todos me garantem que é uma parvoíce minha, "qual estrábica!".
Há tempos tive um encontro às cegas. Naqueles em que normalmente se leva uma flor amarela ou se descreve ao pormenor a roupa para sermos facilmente identificados, eu nem perdi tempo e disse ao meu "par" que era estrábica. Coincidência das coincidências, ele disse que também era.
À hora marcada, no sítio combinado, lá estava eu, com o meu estrabismo em riste, pronta para detectar o mais charmoso desalinhamento ocular que entrasse.
Um homem entrou e olhou para a ementa. Foco total. Não era ele. Outro olhou para o telemóvel. Foco total. Também não.
A poucos metros, num banco ao balcão, um senhor parecia esperar por alguém. Olhava para o relógio, depois para a entrada com uma ansiedade que me parecia familiar. Os nossos olhares cruzaram-se por um instante. Desviei logo o meu. Que olhar tão simétrico. Impossível ser ele, pensei, desapontada com a perfeição. Ele, pelo visto, pensou o mesmo de mim, porque voltou a olhar para a porta como um caçador à espera da presa.
Já passava uma hora. O senhor do balcão suspirou, bebeu o que tinha no copo de um só trago e abanou a cabeça, como quem aceita a derrota. Ao sair, passou pela minha mesa e deu-me um meio sorriso de solidariedade, aquele sorriso universal de quem foi deixado pendurado. Retribuí, sentindo-me perfeitamente compreendida por aquele estranho de olhos alinhados.
Fiquei mais dez minutos, por teimosia. Depois, paguei e saí, com uma nova dúvida a instalar-se: serei eu realmente estrábica? E ele, o meu solidário companheiro de desgraça, seria o meu par e ao contrário da personagem do Tubarão 2000, não ser vesgo mas pensar que o é?
A ironia de duas pessoas, inseguras sobre um suposto "defeito", usarem esse mesmo defeito como ponto de encontro e, por causa disso, não se encontrarem
Nunca mais darei o estrabismo como referência, florinha amarela e roupinha a contrastar...
Esta é uma história real. Qualquer semelhança com ficção é pura coincidência (mas faz de conta que não sabemos).
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