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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

19
Mai25

Anatomia do adeus...


ROMI

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Quem gosta sem razão deixa de gostar pelo mesmo motivo... 

 

Brindo ao desencanto, mais ou menos.
Refugio-me na figura que um defunto plagiou,
sopro a vela, atiço a fogueira,
e a paixão continua medíocre.

No vazio da distância, suspendo-me
num gesto oferecido,
e a meia-noite permanece intacta.
O meio da noite também.

Pretendo atrasar-me, digo eu,
e anuncio o espanto.
Num socorro sem alívio, corro só,
como quem se esgota na despedida
e despida permanece, mas de distância.

Sendo assim, ainda não chorou de saudade
quem se fez de contente.
Volto a anunciar o espanto.

Com quantos gestos de indiferença
se destrói a velha nota de rodapé
onde um dia se escreveu: “ para sempre…”?

E depois, há uma voz rouca que me chama.
Talvez queira saber a quem pertence.
Não ainda.

FOTO: IT´S RAINING MEN (aleluia)

 
27
Dez23

Rebeldias...


ROMI

Na habitual forma egoísta de evitar ficarem preocupados, as tropas não queriam que eu fosse à passagem de ano com amigos. Depois de muitas negociações, até prometi usar o relógio no braço esquerdo (para a minha madrasta era um manifesto ato de rebeldia usar no direito), o ultimato: posso ir, mas não posso levar o meu carro. Carro esse, estrategicamente estacionado de modo a ser controlado da janela. Falhei na promessa com o relógio, mas aí cumpri. Não levei o meu carro, roubei o carro ao meu pai, estacionado em ângulo morto.

A esta distância, sinto que não lhes facilitei a vidinha. Gorei todos os planos que tinham para mim. A minha também não foi facilitada, apesar de ter feito sempre o que quis, nunca nada foi feito como quis: era o fato de treino sobre a minha roupa normal e avisar que chegava tarde, tinha treino de basquete. Era sair com a saia pelo joelho e dar duas ou três voltas no cós para que ficasse dois palmos afastada. Era subornar, com beijinhos, a porteira para que me entregasse o boletim das faltas da escola. Era entrar pela porta, à hora marcada, avisar “já cheguei” e sair pela janela quase no mesmo instante. 

Tudo isto causa uma ansiedade viciante, tudo o que não fosse arriscar não tinha sabor. Nunca fiz nada que os prejudicasse ou envergonhasse. Agradeço todos os valores que me transmitiram, principalmente a minha madrasta. O meu pai era mais cúmplice, compactuava com ela só para não a desautorizar, para a agradar. No fundo, ele queria lá saber. Até dizia, sem orgulho, que eu saía a ele. 

Hoje não há regras, só as sociais. Não há tropas para contrariar. As janelas não substituem as portas. O relógio permanece no braço direito só por hábito. Há a passagem de ano marcada com amigos. E um vazio. Talvez das lembranças que se despediram do presente. A saudade e a solidão emergem como protagonistas, a desconexão com a multidão. A necessidade de contrariar. 

Hotel marcado, Alcobaça. Onde não conheço rigorosamente ninguém. Um desejo: espero que chova… 

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