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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

28
Nov22

PAUSA PARA UM CAFÉ...


ROMI

A frase "vamos tomar um café" tornou-se banal. Um acto de socialização bem aceite e que faz sentido praticar até com quem mal conhecemos ou acabámos de conhecer. Tomar um cafézinho é o mote para estabelecer uma relação, ainda que breve. Há dias, chovia torrencialmente, dei abrigo, no meu minúsculo chapéu de chuva, a um senhor que estava completamente desprotegido de artefactos impermeáveis. Rimos imenso, conversámos o possível e atravessámos estradas com a água pelo tornozelo. Encharcados os dois, na cumplicidade ímpar de quem sabe que o chapéu de chuva não serve de nada quando um dilúvio desaba sobre nós. Passar por isso sozinha seria uma maçada, partilhar a situação com um estranho foi um alívio. Chegados ao destino, estação de comboios, o inevitável convite: "Vamos tomar um café?"- Podia ter-me pedido em casamento, convidar-me para uma viagem à volta do mundo, podia ter-me até convidado, num plano mais radical, surfarmos a onda da Nazaré. Mas não! Convidou-me para um café. Tomar um café é coisa séria, não se faz por dá cá aquela palha. Não se toma um café encharcado e à pressa, quando se espera um comboio. Tomar um café obedece a um ritual e preceitos que não estavam reunidos na altura. É banal tomar um café só porque sim, mas o café que realmente nos aquece, baseia-se, simbolicamente, no pacto de estabelecer laços. Ou de dar continuidade a laços estabelecidos.  É um compromisso.

Façam-se 60 segundos de silêncio pelos cafés desperdiçados. Em penitência vou optar por um chá com banha oxidada como em Ulan Bator.  
 

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08
Ago22

EM PASSO PLANEADO...


ROMI

Apertei os sapatos em ritmo de Adeus.
Parto em passo planado, com o sol em poente, reivindico uma gaivota triste como complemento de paisagem.
Só depois me afasto, sem carácter de urgência.
Vestida de preto, com salpicos de silêncio e um apontamento a designar,
levo nas mãos acenos gastos à força de tanto serem usados. Remeto-as à inercia!
Pela primeira vez não olho para trás num gesto póstumo.
Há "nós" e laços, há agora um projecto de consciência em ruína.
Atirei, como uma noiva, um ramo de crisântemos.
Lamento imenso se alguém o apanhou... 

"Ele foi sempre um mar de inverno, ela quis ser uma gaivota
de verão."

IMG_20191208_082336.jpg Foto by me

     

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