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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

23
Dez25

Recado ao Pai Natal...


ROMI

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Meu querido, este ano sou só eu.  A gata Luna foi para o céu, já deve saber. Corre por pastos onde não há inverno. A falta que ela faz, é uma presença que eu ainda consigo sentir. Não se preocupe em passar por aqui. Não há sapatinhos na chaminé. A menos que queira descansar ou, quem sabe, até jantar. Mas em silêncio, como dois amigos que não precisam de palavras. Não teremos couves nem bacalhau. Nem doces. Nem vinho do Porto. Nem árvore de Natal. Nem vontade de ter. Ignore a sugestão. Descanse e jante numa casa com Natal, a festa da família. 

Na minha restam lugares vazios, sem nomes e sem rostos. Nunca foram preenchidos. Eu não sou filha de ninguém. Sem dramas. Por vezes, a maior celebração é apenas estar em paz com o vazio. E estou. 

Que a luz desta época chegue a todos, não só pelo brilho das decorações, mas pelo calor que guardamos cá dentro. 

Feliz Natal.

23
Dez25

Desembrulhar Gestos...


ROMI

Há presentes que chegam embrulhados em papel e assim permanecem. Prometi abrir na noite e à hora em que, supostamente, o Pai Natal anda a distribuir presentes a quem se portou bem.

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Há presentes que chegam embrulhados em gestos. Poemas Reunidos, de Pedro Mexia, é um deles. É quase como quem chega a casa e encontra uma voz conhecida à espera.

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Vai para a prateleira das vozes que acho que conheço, aquelas a que regresso vezes sem conta para reler um conto, um poema, uma frase. Como quem desembala pesamentos... 

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Ontem, por exemplo, José da Xã foi a companhia ao jantar. 

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Que sorte a minha...

19
Nov25

Pré-hibernação...


ROMI

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Quase Natal. A fase ideal para me fingir de morta e assim evitar recusar os convites dos que insistem em não desistir. Já avisei que vou hibernar. Tenciono negligenciar todos os jantares próprios da época. Cheguei àquele ponto em que o espírito natalício desperta mais vontade de desaparecer do que de pendurar luzes. Os convívios sugam mais energia do que um turno inteiro de trabalho e a repetição das mesmas conversas sobre idade e artroses  torna tudo ainda mais desmotivante. Todas da mesma geração: umas dizem que estão velhas e acusam as outras de não assumirem os anos que têm. Quero lá saber se quem tem a minha idade se sente velho. Não se deixasse envelhecer. Ai e tal, já não vamos para novas. Eu, vou. Vou para nova, para aqui, para ali, vou para onde eu quiser. A sorte é  não ter o hábito de comprar presentes para porem no sapatinho. Ia tudo corrido a bengalas (o corretor sugere-me bengaladas, calma, não chegamos a tanto).

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Se alguém me perguntar o que desejo para 2026, a resposta será simples: paz, paciência e silêncio absoluto, com todos(as) à distância regulamentar de 200 000 metros, sendo o seu não cumprimento passível de coima.

25
Dez23

Pijamas, estrelas, pizza e gatas travessas...


ROMI

 

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Os meu votos de Natal, para além da saúdinha, paz e amor, é que a vossa balança tenha mais espírito natalício do que a minha, estou farta de comer doces e não consegui emagrecer um único quilinho.

 

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 Noite de Natal. Rejeitados e devidamente agradecidos todos os convites para passar a noite em casa alheia (eu sou uma pariga séria). A habitual troca de doces com a vizinha do lado. Silencio o telemóvel. O som das mensagens natalícias, em catadupa, fazem lembrar badaladas. Temo que os fiéis se confundam e pensem que é aqui a missa do galo.  Vestida a rigor, pijama. Mas não é um pijama qualquer, comprado na loja do chinês, tem uma estrela e tudo. Mantenho a tradição, pizza. Há quem coma bacalhau com couves, nunca vou perceber porquê, a tradição já não é o que era.

A vantagem de ser sozinho é que temos toda uma mesa só para nós. A desvantagem é não conseguir abrir a garrafa de champanhe, nada que um saca rolhas não resolva.
Fica a prova que passar o Natal sozinha também tem os seus encantos. É assim há anos, com raras excepções. É a minha tradição.
 

As velas cintilam ao som de Amy Winehouse - Back To Black. A gata Luna, porque eu não a deixei brincar com um “sonho”, derruba, mais uma vez, a pinha de Natal. Ignoro-a e como mais uma gulodice. A vizinha de cima ri com uma gracinha da neta, deduzo eu, e batem muitas palmas. Eu bebo mais um bocadinho de champanhe e corro atrás da Luna que foge desalmadamente com uma azeitona na boca. Ainda tenho uns quantos filmes para ver. 

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E eu aqui, nesta figurinha ridícula, com um barrete pendurado na cabeça, cortesia SAPO para anatalar o meu dia. Que bom....

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16
Dez23

A consoada...


ROMI

15731726_1334761116555452_4702735024465934072_o.jp     Imagem do meu álbum "Natal na aldeia"

Fechou a porta. Confirmou que tinha o porta moedas no bolso do avental e seguiu pela vereda estreita, com a alcofa das compras pendurada no braço. 

Tinha tudo bem planeado, caso lhe perguntassem, ia passar o Natal com a filha, a Lisboa. Foi o que disse à Alice, a vizinha do lado, quando a convidou para ir passar a consoada com eles. Alice tinha a casa cheia, as filhas, os dois genros e os 3 netos. 

No caminho encontrou pouca gente, mas a pergunta inevitável surgiu. Uma deu-lhe filhós, para levar à filha. Outra deu-lhe duas farinheiras, uma morcela e uma chouriça. Não teve como recusar. Quando chegou à mercearia já levava a alcofa cheia. Comprou duas caixas de bombons, daqueles caros que a filha gosta. Pediu para embrulhar e escolheu um laço dourado. À pergunta da merceeira, respondeu que ia no dia seguinte, na carreira que passa no bairro às sete e dez. A filha ia esperá-la à estação. Ela própria acreditou no que estava a dizer.

A filha tinha vergonha dela, sabia. Mas percebeu. Os sogros eram muito finos, uns senhores. E muito bem prontos. Eram doutores, como a filha e o genro, que também era doutor, mas engenheiro. Sabiam comer de faca e garfo e falavam como os senhores da televisão. Ela sabia assinar o nome e os números até dez, foi a filha que lhe ensinou. Àh, e gostava de ópera. Olaré, até tinha um gira discos velhinho que o patrão lhe tinha dado, quando se apercebeu que ela gostava de ópera. Porque quando ouvia aquelas músicas ela parava o que estava a fazer e encostava o ouvido à porta. Também lhe deu um disco dos grandes e prometeu outro, que nunca chegou a dar. Mas não lhe levou a mal, há pessoas que gostam de dizer que fazem coisas que depois não fazem. 

Com estes pensamentos chegou a casa. Tinha de adiantar alguma coisa para comer no dia seguinte, de modo a não fazer barulho, não fosse a vizinha aperceber-se. As paredes parecem de papel, ouve-se tudo de uma casa para a outra. O pior era não poder acender o lume, por causa do fumo a sair da chaminé. Mas tinha muitos cobertores para se agasalhar, que tinha comprado num leilão, lá para os lados de Alpedrinha. Não podia ligar o aquecedor elétrico que às vezes o quadro ia abaixo. E não se podia esquecer de se despedir da vizinha. Que sorte ter-se lembrado deste pormenor.

No dia seguinte, encerrou tudo como se realmente fosse de abalada. Passou a maior parte do tempo deitada, quase às escuras, entrava uma réstia de luz pela telha de vidro que tinha na cozinha. Nem fome tinha. Tentou comer um bombom da filha, mas soube-lhe a lágrimas.

De vez em quando ouvia o telefone da vizinha tocar. Ela nunca quis telefone, a filha já tinha gasto dinheiro nos óculos e nos dentes novos, a que nunca se habituou, e não quis dar-lhe mais essa despesa. 

Quase oito da noite. Batem-lhe à porta. -” Ó Lena, abre ca gente sabe que tás aí. Ligou a tua filha a desejar um bom Natal e o ti Flipe disse que hoje não houve camenete da carrêra. Anda comer para irmos à missa do galo”.

Acendeu a luz, calçou os sapatos de domingo, embrulhou-se no xale de lã grossa que lhe cobriu a cabeça e respondeu ao apelo de quem lhe queria bem.

Nunca soube se tinha esgotado as lágrimas, se estava demasiado feliz para chorar. 

 

Olhou para os vizinhos e viu anjos.

Ignorou a saudade e chamou-lhe Natal.

 

II

 

Na manhã seguinte, dia de Natal, Lena acordou e o sentimento de culpa acordou com ela. Tinha enganado as pessoas da aldeia. O orgulho ferido impediu-a de dizer a verdade.  Assumir perante todos que a filha não queria passar o Natal com ela, estava muito além do que o amor próprio poderia suportar. Quis devolver as ofertas para a filha. Justificar-se, dizer que não quis que ficassem tristes por ela.

Claro que toda a gente  percebeu e perdoou, num misto de empatia e compaixão. E Lena respirou de alívio. Recusou gentilmente os convites para o almoço de Natal. Já estava em paz e tinha a comida que sobrara do dia anterior. 

A aldeia estava deserta, imensos carros estacionados nos lugares por norma vazios, indicavam a deslocação da família que vivia longe. 

Acendeu o lume, desta vez não poupou na lenha, sentou-se ao quentinho e rezou o terço. 

Páram dois carros no largo em frente à casa. O coração bate forte. Agarra-se ao terço com mais força quando lhe batem à porta. A filha, o genro, os senhores e um casal novo  que não conhecia.

E ela ali, sem os sapatos de domingo, nem o xaile a cobrir-lhe o avental. O abraço interminável da filha. O abraço confortável do genro. Os senhores, no cumprimento moderado e educado. O outro casal , filho e nora dos senhores, mais descontraídos e informais. 



A filha, nas véspera desse dia, liga para a Alice, a desejar um feliz Natal e pede para falar com a mãe. A Alice, admirada, consegue balbuciar que supostamente a mãe teria ido passar o Natal com ela. No mesmo instante, ambas percebem a situação.

Perante o desconforto da nora, os senhores, ficam verdadeiramente incomodados, e reprovam a atitude. A consoada decorre sem o glamour habitual. Mas a senhora tem a solução. Embalar tudo o que está na mesa, mais o adiantado para o dia seguinte, e almoçar com a Lena no dia de Natal.

 

A senhora, em chique, com as unhas muito bem arranjadas, de salto alto, a contrastar com as pantufas da Lena, em gesto snob, tapa ao de leve os lábios com a as pontas dos dedos, sempre que sorri com algo na boca. A Lena, feliz, sempre que ri, tapa a cara com a dobra do braço, talvez para encobrir a falta de dentes, talvez para mostrar à filha que nada poderá mudar a sua essência, por  muita vergonha que isso lhe provoque. 

Sentiu uma ponta de ciúme, quando a filha lançou à sogra um olhar terno, cheio de gratidão. 

Lena nunca soube de quem tinha sido a iniciativa do almoço de Natal em família, atribuiu à filha. 

A senhora, que era doutora e falava como os senhores da televisão, deixou-a ficar nessa ilusão. 

 

13
Dez23

ESTAMOS TODOS...


ROMI

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"Só se começa a comer quando estivermos todos à mesa." Há anos que não ouço esta frase; acredito que continue em uso. Curiosamente, reparo que é uma expressão de família, maioritariamente usada nesse contexto. É uma frase de conforto. Quando a ouvia, não tinha o conceito de família. Soava-me a ultimato, uma imposição. Ainda hoje não tenho o conceito de família, e queria tanto ter. Por inerência, e dado que o Natal é a festa da família, também não tenho o conceito de Natal.

Às vezes, imagino-me numa mesa enorme, em noite de consoada, rodeada de gente à qual não consigo atribuir um rosto. Eu e os meus fantasmas. Desisto. Decididamente, não gosto do Natal, apesar de ter enfeites espalhados pela casa e das comidas tradicionais na mesa. Que é posta só para um.

A gata Luna aninhada na cadeira, ao meu lado. Em frente, o ursinho Frusky, que tem quase a minha idade. Sentar um ursinho de peluche à mesa é quase um sinal de demência, mas é a sensação de estarmos todos. Estamos todos. Podemos começar a comer. 

Assumo, eu gosto do Natal. O Natal é que nunca gostou de mim.

11
Dez21

OS QUE NEM NO NATAL SE LEMBRAM DE NÓS...


ROMI

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Acredito que haja pessoas que gostem, genuinamente, do Natal. Da azáfama, das prendinhas no sapatinho, de receber amigos e familiares. De se lembrarem de quem, ao longo do ano, vão apenas recordando, ou nem isso. Para mim, prefiro aqueles que só se lembram dos outros no Natal aos que nem no Natal se lembram de alguém.

Essas pessoas, as que gostam genuinamente do Natal, acabam muitas vezes devastadas, acusadas de hipócritas e de consumistas por quem não reúne condições para gostar desta época. E têm todo o direito de não gostar. Todos os motivos são válidos para não gostar do Natal. Eu própria não gosto, mas gosto imenso que haja quem goste. Gente que consuma, os lojistas, que também têm contas para pagar, agradecem. Gente que distribua risos e abraços que outros chamam falsos.

Preparem-se, porque nesta altura vão ler inúmeras vezes que são isto e aquilo. O Natal ainda nem começou e palavras como hipócrita, falso e consumista já abundam por aí.

Sim, eu também não gosto do Natal. Não reúno, de todo, condições para gostar. Mas gosto de quem gosta. Do que não gosto mesmo é dos moralistas, dos que ofendem gratuitamente, algo que infelizmente se tornou uma prática comum.

Vá lá, meus queridos, inovem. Não tornem inglório o vosso esforço. Aguentem-se, até porque há quem defenda que o Natal é todos os dias e, imagine-se, quando o Homem quiser. Que chato, não é?

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