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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

03
Out25

Compasso de espera...


ROMI

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Ainda não passou um mês desde que a minha gata partiu, e já perdi a conta às vezes que me sugeriram adotar outra. Como se a sua ausência fosse um mero inconveniente: uma camisola que se rasgou, um sapato que descolou e urge substituir. Quem nunca criou uma relação verdadeira com um animal, quem nunca partilhou brincadeiras, afeto e rotinas, dificilmente compreende que a perda não é “só um gato”. É família. É a ausência de uma companhia que, durante quinze anos, fez parte da minha vida. A sugestão de “adotar logo outro” é fria, porque ignora o luto, a memória e o espaço que ainda está dolorosamente preenchido, o lugar que é dela. É uma ligação intemporal: não se apaga, não se substitui. Ninguém substitui um familiar que morre.

Os nossos animais não são objetos de estimação; são seres com quem partilhamos amor. Eu sei que não é por maldade; é antes uma forma de cuidado, uma tentativa de me oferecerem companhia no vazio que ficou. Um remendo, como se um novo afeto pudesse costurar de imediato a ausência.

Eu preciso de tempo. Tempo para honrar a vida que partilhei com a minha gata. A minha menina. A minha Luna. E, por agora, não me peçam: não teria capacidade para amar outra.

 

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30
Set25

O meu Conde...


ROMI

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Em arrumações, o quarto que era da Luna.
A caixa das fotografias, que guardo sem qualquer significado. Passado morto.
Sempre quis entender as pessoas que têm fotos espalhadas pela casa.
Penso desfazer-me de umas quantas: as memórias felizes não me tornam mais feliz.
Lei do desapego, é este o espírito em dia de arrumações.
Eu e o MJ debaixo de um moinho, no parque de campismo da Ericeira.
De Porto Côvo.
De Algeciras.
CCL.
Eu e o MJ gostávamos muito de acampar, concluo. Lixo.
A festa de aniversário de A, B, C… até ao fim do abecedário. Lixo.
Chuva de arroz e pétalas abate-se, num agouro de felicidade, sobre os noivos à saída da igreja. A, B, C… até ao fim do abecedário. Lixo.
Lixo.
Lixo.
A caixa quase vazia.
E surge a Foto.
Uma amizade improvável, marcada por uma diferença de quarenta anos. Talvez mais.
Suscitou dúvidas. Gerou rótulos. Como se fosse mais uma Lolita de Vladimir Nabokov.
A nossa cumplicidade, tranquila, ignorou-os.
Meu salvador.
Meu confidente.
Ríamos. Conversávamos. Passeávamos. Muito.
Foi o único a quem permiti ler as minhas primeiras histórias e os primeiros poemas.
Ficou com alguns rascunhos em papel.
O Amigo.
Pudesse eu, numa palavra, transmitir todo o carinho quando o vejo, em pensamento, triste, por já não estar à distância de um abraço.
O Conde.
O meu Conde…
 
 
26
Set25

Reflexo da ausência ...


ROMI

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Hoje, um avião sobrevoou a casa com um barulho ensurdecedor.
Corri, instintivamente, para a minha gata. Queria protegê-la, como sempre, do medo que os ruídos lhe traziam. Mas ela não estava.
 

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Não abriu os telejornais.
Não foi notícia de primeira página
Nem mereceu um canto discreto na capa dos jornais.
Ninguém soube.
Ninguém se importou.
Como se fosse coisa pouca.
E eu, destroçada, sem ela para me consolar.
A morte, impiedosa, resgatou-ma.
E eu, impotente, limitei-me a vê-la partir
em forma de alma gentil ...
ficando eu cá na terra sempre triste...
 
Esbarro na sua ausência.
Apesar de a sentir pela casa toda.
Tinha o dom de preencher silêncios.
De se enroscar nas minhas rotinas.
Onde arrumo isto que sinto?
Como me dispo desta saudade, imensa, sem retorno?
Como se faz? Eu não sei.
17
Mai25

Para o Martin com amor ...


ROMI

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Martin era o meu gato. Desapareceu há dezoito anos. Não há luto para o inacabado. Nem persistência que resista ao compasso do tempo. Mas, sem luto, há um ciclo incompleto que não sei como fechar. E continuo a vê-lo por aí e sei que não é ele, porque não me vê a mim. E continuo a vê-lo em cada canção, em cada trecho, que tem a palavra "amigo". Continuo a resistir à resignação e ao adeus. O Martin não morreu no tempo, mas no silêncio. E esse silêncio continua a miar nas paredes da casa e no meu coração. Não é perda nem presença, apenas ausência sem forma.
 

 

 
"And all are bobbing heads in sync
And all have got a lot on their minds to think about
But you carry on in pictures and in song
And the unmade be you slept in
Where I laid you down to rest one last time
Goodbye, dear friend, goodbye, dear friend "
 

27
Dez23

Rebeldias...


ROMI

Na habitual forma egoísta de evitar ficarem preocupados, as tropas não queriam que eu fosse à passagem de ano com amigos. Depois de muitas negociações, até prometi usar o relógio no braço esquerdo (para a minha madrasta era um manifesto ato de rebeldia usar no direito), o ultimato: posso ir, mas não posso levar o meu carro. Carro esse, estrategicamente estacionado de modo a ser controlado da janela. Falhei na promessa com o relógio, mas aí cumpri. Não levei o meu carro, roubei o carro ao meu pai, estacionado em ângulo morto.

A esta distância, sinto que não lhes facilitei a vidinha. Gorei todos os planos que tinham para mim. A minha também não foi facilitada, apesar de ter feito sempre o que quis, nunca nada foi feito como quis: era o fato de treino sobre a minha roupa normal e avisar que chegava tarde, tinha treino de basquete. Era sair com a saia pelo joelho e dar duas ou três voltas no cós para que ficasse dois palmos afastada. Era subornar, com beijinhos, a porteira para que me entregasse o boletim das faltas da escola. Era entrar pela porta, à hora marcada, avisar “já cheguei” e sair pela janela quase no mesmo instante. 

Tudo isto causa uma ansiedade viciante, tudo o que não fosse arriscar não tinha sabor. Nunca fiz nada que os prejudicasse ou envergonhasse. Agradeço todos os valores que me transmitiram, principalmente a minha madrasta. O meu pai era mais cúmplice, compactuava com ela só para não a desautorizar, para a agradar. No fundo, ele queria lá saber. Até dizia, sem orgulho, que eu saía a ele. 

Hoje não há regras, só as sociais. Não há tropas para contrariar. As janelas não substituem as portas. O relógio permanece no braço direito só por hábito. Há a passagem de ano marcada com amigos. E um vazio. Talvez das lembranças que se despediram do presente. A saudade e a solidão emergem como protagonistas, a desconexão com a multidão. A necessidade de contrariar. 

Hotel marcado, Alcobaça. Onde não conheço rigorosamente ninguém. Um desejo: espero que chova… 

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17
Jan23

CORVO ...


ROMI

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O "Corvo". Ao que parece fechou o perfil. Das pessoas mais gentis que conheci por aqui.Tinha sempre uma palavra de carinho para me mimar. Aos poucos foi-se afastando, deu outro rumo ao Blogue. Há que respeitar. Mas estava lá. Eventualmente, terá ou abrirá outro espaço, neste charco (como carinhosamente chamamos).  É o meu desejo.

Nunca as últimas palavras que me deixou fizeram tanto sentido, mas no sentido inverso. Sou eu que as dedico a quem me deu tanto.
 
Que esteja e se sinta bem, querido amiguinho CORVO.
Voltará ou não, nunca será esquecido e será sempre recordado.
Toda a felicidade do mundo para si, e que o farol da serenidade ilumine os passos do seu caminho.
Saúde, paz e harmonia na sua vida
Um beijinho.
 
Hoje estou triste, sinto pena, tenho saudade.
Até sempre, meu querido. 
 
13
Jul22

O SENHOR DO CACHIMBO...


ROMI

Era costume fumar na janela da marquise, para ver o pôr do sol. Na varanda da vivenda em frente, um senhor, de meia idade, barba branca e ar distinto, fumava cachimbo. Se os olhares se cruzassem, dizíamos, imperceptivelmente, boa tarde e nada mais. Por norma, e para meu deleite, havia sempre uma música clássica no ar. Uma em particular que eu gostava muito, sabia que era do Pavarotti, mas não sabia o nome da ária.  Enchi-me de coragem e perguntei-lhe. Caruso, respondeu ele. A partir desse dia, sempre que eu ia à janela, ele punha Caruso. E eu agradecia-lhe com um acenar de cabeça e sorriso discreto. O senhor, não sei o nome, manteve o ar distinto, apesar de cada dia mais débil. Quando umas senhoras, vestidas de preto, encerraram de vez as portadas das janelas, deduzi que faleceu. Eu, em homenagem, continuo a ouvir Caruso. O senhor já não está. E mesmo que estivesse, não o poderia ver. Nem ao pôr do sol. As árvores do jardim de baixo cresceram imenso. De tal forma que quando vou à janela, só vejo o cume das árvores. Mas gosto de acreditar, que o senhor do cachimbo está lá e que põe Caruso só para mim.

Eu quando ponho, é para os dois... 

  

 

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21
Jun22

O SOM DO SILÊNCIO...


ROMI

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E às vezes cantávamos, e abafávamos o som da viola. E riamos, riamos sempre muito. Não sabíamos, mas éramos barulhentos. Tão barulhentos que nem ouvíamos os barulhos domésticos, o tilintar dos talheres no prato. O silêncio falava baixinho. Agora o silêncio ganhou voz. Estou só, parece-me.

Saudades de mim com os outros. 

 

19
Mai22

VANGELIS...


ROMI

      

Vangelis, nos momentos em que não me apetece pensar. A música a fluir eu a deixar-me ir. Vangelis, para me ajudar a serenar, devolver alguma lucidez. Uma fonte de inspiração também, na escrita, devo-lhe tantas palavras.
Partiu, a obra fica. Fica também a saudade imensa.
 Obrigada. Daqui... até que!!!
 
"Aqueles que por obras valorozas se vão da lei da morte libertando"

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