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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

20
Jan26

O lugar onde pertenço...


ROMI

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Após alguma insistência, fomos todos tomar café a casa da LF. Não foi necessário descalçarmo-nos à entrada. Grata.
Uma casa antiga, com um corredor quase infinito. Uma música, em gritos, que queria a todo o custo ganhar espaço, esgueirar-se por uma janela, por uma porta… sei lá. Era urgente sair dali. E eu com ela. Não havia espaço para nós as duas: eu e a música. Aquela música em desespero.
A LF a anunciar a chegada com um “Cheguei!”, tão estridente como tudo o resto. Mais vozes elevadas, sobrepostas, na conversa que se seguiu. Ninguém pareceu estranhar nada: um sorriso empático de todos para com a família barulhenta.

Eu gosto de entrar numa casa silenciosa. Em penumbra. Ficar assim por instantes, sem fazer nada. Gosto de um café bem quente na esplanada lá de casa, bebido devagar, como se o tempo tivesse abrandado só para mim.
Depois, sem pressa, desfazer-me: tirar o casaco, os sapatos. É aí que me dou conta de como sou feliz. Pela dádiva do silêncio, do espaço quieto, de não ter de anunciar que cheguei. É no sossego, nesta monotonia, que reencontro o lugar onde pertenço.

21
Dez25

Acústica Imperfeita


ROMI

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A sinfonia áspera dos atritos, o ranger das engrenagens enferrujadas da alma, a acústica imperfeita, o lamento, quebram o silêncio. Curvo-me como uma vírgula e apanho os cacos.  A fricção constante de todas as arestas que a ausência de ruído já não pode limar ou suavizar. Suspendo-me na textura emocional do silêncio fragmentado, repartido num puzzle imperfeito.

Morreu o silêncio, este.

E é por essa possibilidade perdida que a mágoa cai, pesada e única, na madeira crua do novo ruído que agora me habita. A perda da quietude interior. Desespero assumido.

Chore-se, então. Desalmadamente. No descanso sem paz. No adeus sem lenço branco. Velório, funeral e missa do sétimo dia. Cuidarei de manter vivas as flores na campa do silêncio improvisado.

 

10
Set25

"Obrigado de papel"...


ROMI

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A esplanada, fantástica, quase vazia. Sentei-me e reparei no aviso: não há serviço de esplanada. Entrei. O espaço era pequeno. Uma vitrine exibia os pratos já compostos, peixe ou carne, que por sua vez eram depositados num tabuleiro e deslizavam pelo trilho de metal, como se fosse uma linha de montagem, rumo ao pão, à bebida, à sobremesa e, por fim, à caixa de pagamento, onde a funcionária se limitava a receber. O "muito obrigado" vinha impresso no talão.
Sei que este tipo de serviço, hoje em dia, é vulgar, sobretudo nos Centros Comerciais, num restaurante de rua não estava à espera. Lembrei-me da primeira vez que almocei no refeitório da Faculdade. Naquela época, o conceito de self-service era, para mim, uma novidade. No primeiro dia deixei vários colegas passarem à frente, apenas para entender a "coreografia" do processo. Claro que a senha era pré-comprada, e havia uma funcionária a orientar o serviço.  Mas a maior diferença é que, enquanto na altura a refeição era feita em mesas coletivas, promovendo a socialização, hoje cada um leva o seu tabuleiro para a mesa mais isolada. O cuidado de cada um em não se cruzar demasiado com os outros. 

Hoje, as mesas estão cheias de pessoas sozinhas.
Talvez seja apenas a evolução: as máquinas agradecem a eficiência, e nós habituamo-nos ao silêncio.
 
Nota: a foto não corresponde à esplanada referida no texto. Foi tirada numa hamburgueria (que adorei) nas Caldas da Rainha e aproveitei para a partilhar aqui.
05
Set25

Metamorfoses do silêncio...


ROMI

 

Parte-se o silêncio em dois,
o barulho cai em ruínas.
Empurro o tempo
e afasto o futuro.
 
No ar,
o cheiro a café mistura-se
com as notas da Valsinha
de Vinicius e Chico Buarque.
E eu também amanheci em paz.
 
Resignação
em gesto brando.
Abraços que resgatam
dias iguais.
Pudor
desarrumado num canto
confere uma ausência.
Um vazio.
 
Segredo revelado na margem indivisível
da metamorfose do silêncio.
 
"E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar."
28
Jul25

"Não me sacudam que estou cheio de lágrimas." (II)


ROMI

 

Bateu à porta levemente, deu-me a correspondência em mãos e perguntou:
Estás a chorar?

Não é pergunta que se faça. Pessoas como eu são demasiado cobardes para chorar. Chorar é para os fortes.
Nós, os cobardes, temos conjuntivite, alergia, um cisco no olho... nunca são lágrimas.

Nem lhe respondi. Se dissesse a verdade, teria de confessar mais do que lágrimas. Despachei-o com um aceno, e ele continuou a distribuir a correspondência pelos vários gabinetes.

Não éramos colegas. Várias firmas tinham escritórios alugados no mesmo espaço: um andar na zona do Marquês de Pombal. Por norma, ele, era o último a chegar, coincidindo com a hora do carteiro. Outras vezes, chegava tarde, e era eu a incumbida da tarefa. Havia espaço para uma breve troca de palavras. 

Não éramos amigos. Imperava a cordialidade, e só. Nunca aceitei o convite para tomar café. Evitar, a qualquer custo, criar laços.

E eu estava a chorar, sim. Porque era o meu último dia ali. Porque ia embora para um novo espaço, noutra localidade, ali tão perto e tão longe. Estava a chorar porque não sabia despedir-me. Porque despedir é um verbo que nunca aprendi a conjugar em voz alta.

Ele soube. Não sei como, mas soube. E no fim daquele dia, tentou apanhar-me na estação, como quem tenta apanhar uma última palavra antes de ela se perder no silêncio.

Mas o comboio já estava em andamento.
Nem acenei em adeus.
Vi-me refletida na janela. Na minha expressão podiam ler-se as palavras de Louis Calaferte:
Não me sacudam, que estou cheia de lágrimas.

 

 

 

15
Jan25

O Vento do Sul...


ROMI

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Fui visitar o Solar do Silêncio…
Arrasei como alma que se quer penada. 

Se o vento do Sul voltar à tardinha, em forma de sentinela zelosa, devolver-me-á
O sorriso que se quer triste.

E depois deste pranto lento
De alguém que perdeu o rumo e jamais o encontrou
Derramará gotículas que se querem nuas, porque são salgadas.

E em sintonia depravada
Busca  recordações vivas, mas que já não respiram.
Rasgará flores e corações em forma de pensamento
Que se perdeu à beira dos dias.

E rodopia e baila e continua.
Porque o bem querer morreu de morte lenta.
Não sabia morrer de repente.

E o vento do Sul não veio à tardinha.
Ficou por aí suspenso em parte ingrata.
E o dia que jaz, porque se quer vivo
Virou as costas e anoiteceu...

Fui visitar o Solar do Silêncio

Acendi mil velas sem calor.
Depois fugi, como alguém que se quer gente
E está despido de si… 

30
Nov24

Silêncios de Novembro...


ROMI

 

 

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No gesto altruísta de quem decide oficializar a distância, parti.

Partir é quase morrer... com a capacidade de ressuscitar.

Pesa o silêncio a que a memória se habituou.

Esboço um sorriso que não é o meu ...

Esse morreu ontem à noite.

A noite, essa, mantém-se lá fora...

E são duas da manhã.

Uma janela que se fecha...

A minha...

Como um Novembro sem calma...

Um episódio em forma de fim.

Alguém que morreu, sem partir

e ainda não sabe.

As ondas, essas, morrem na praia.

Nem todas vão para o céu...

 

Foto do  álbum "Os meus serões".

 

 

 

 

29
Set24

"O Trem das Onze" (memórias)...


ROMI

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05
Jul24

Silêncio, estamos em Sintra ...


ROMI

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Sintra, à noite, transforma-se, ostenta um manto de mistério. Veste-se de gala e de respeito. O silêncio impera como um código secreto. Ninguém ousa falar alto. Sussurros e risos abafados são a norma, para não quebrar o encanto.

De todas as caminhadas noturnas em que participei, só em Sintra senti este efeito. Dentro da localidade, era-nos pedido que fizéssemos o mínimo barulho, para descanso dos residentes. No interior da serra, essa necessidade não existia, mas, por efeito coletivo ou não, todos murmuravam, ninguém falava alto.

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Sintra, à noite, não é um lugar, é uma sensação. É a simbiose perfeita de tudo o que representa, a harmonia mística, a magia das lendas e contos. Segredos escondidos em cada recanto.

Caminhar pela serra de Sintra, à noite, é como entrar num conto de fadas, cada sombra parece contar uma história, que nos embala, e não apetece sair. 

 

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Fotos do meu álbum "Caminhadas" com o grupo "Pegadas Noturnas".  As fotos não são da minha autoria. 

17
Nov22

A CASA DA ALDEIA...


ROMI

Não me imagino a viver na casa da aldeia, nem gosto de ir à aldeia. Deprime-me. Não gosto de acordar com os passarinhos, nem de adormecer com o irritante do grilo. Gosto de passarinhos e grilos, mas caladinhos. O que eu gosto mesmo é das osgas que habitam o anexo, a que chamo a casa do lume. E na casa do lume, verão ou inverno, há sempre uma ou duas osgas. 
Depois há o senhor que trata das parreiras e fica com as uvas, teima sempre em dar-me um garrafão de vinho. Só aceito a garrafa de bagaço. Pasme-se, gosto de bagaço. Depois há o senhor que trata das oliveiras, lá rejeito eu o garrafão de azeite. Mas gosto desta dinâmica da aldeia, de tratar do que é dos outros e apesar de  raramente lá ir , tem tudo um ar muito cuidado, como se a minha avó ainda respirasse. 
Estive há pouco tempo na casa da aldeia, há assuntos que só eu posso tratar e há situações recorrentes; A minha avó deitava-se muito cedo. Eu ficava na casa do lume, sozinha,  num serão que se alongava. Adoro serões. Quando regressava à casa "grande", tinha todo o cuidado ao abrir e fechar da porta. Todo o ruído em suspenso, até ao deitar, para não a acordar.
Passaram tantos anos e sempre que lá vou, dou por mim silenciosa, quase em apneia, até que acordam os pensamentos e me lembram, podes fazer barulho, ela já cá não está... 
 

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15069069_1289065324458365_886860052732878215_o.jpg Imagens do meu album A casa da Aldeia

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