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DESABAFOS

Razoavelmente insuportável…

Razoavelmente insuportável…

DESABAFOS

12
Out25

Notas de Uma Solidão Lúcida...


ROMI

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Não há coisa mais enfadonha do que ouvir os sonhos dos outros. Eu nem dou conta dos meus, e tenho alguns recorrentes, mas só sei que o são no próprio sonho.
Outro tédio: as anedotas. O que me faz rir, e eu adoro rir, é diferente do que faz rir as pessoas com quem tenho de conviver. Rio-me sempre em tempos diferentes, e por norma, sozinha. Reporto-me à série 'Allo 'Allo!: eu, perdida de riso, e os meus amigos, na altura, com cara de caso a olhar para mim. Monty Python dava na RTP2; só eu gostava.
Rui Veloso diz que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Também é válido para quem não partilha o mesmo sentido de humor, nem o interesse pelos mesmos temas de conversa.
Eu rio-me com o absurdo, com a sátira mordaz, com a ironia disfarçada. Com a capacidade de expor a hipocrisia e as contradições sociais de forma hilariante, mas elegante. Fugindo sempre da lógica convencional. Segundo os entendidos, um riso que, por ser mais cerebral e menos imediato, é naturalmente solitário.
As pessoas cansam-me. E eu também as canso. Sou péssima companhia para a maior parte delas. Cada vez me isolo mais. E estou bem assim.
A única companhia que respeita o meu tempo e o meu silêncio é um livro. Ao contrário das pessoas que contam anedotas ou sonhos, o livro só fala comigo quando o abro.

Hoje cortei-me. Nada de grave.
O sangue não parava. E eu, ali, sem colo, sem ninguém para cuidar de mim. E essa ausência é o preço mais alto da solidão lúcida.

28
Fev25

Quando, Simplesmente, Chove...


ROMI

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Já aqui estive antes.
Não me refiro ao lugar…
Refiro-me ao instante.
Chovia…
Como acontece muito quando chove.
A chuva torna a noite  silenciosa.
 
Gosto mesmo de momentos!
Quero apenas cinco minutos…
 
Vou só ali apanhar chuva.
O momento em que me abraço
E fico simplesmente  deixar a chuva acontecer.
Cada gota chama o meu nome.
 
Depois, molhada, desnorteada
Finjo que é domingo
E invento mais um momento
Até a chuva passar.
 
Só quero cinco minutos.
 
A solidão é a única companhia quando, simplesmente, chove.
Hoje, simplesmente, chove.
 

 

27
Dez23

Rebeldias...


ROMI

Na habitual forma egoísta de evitar ficarem preocupados, as tropas não queriam que eu fosse à passagem de ano com amigos. Depois de muitas negociações, até prometi usar o relógio no braço esquerdo (para a minha madrasta era um manifesto ato de rebeldia usar no direito), o ultimato: posso ir, mas não posso levar o meu carro. Carro esse, estrategicamente estacionado de modo a ser controlado da janela. Falhei na promessa com o relógio, mas aí cumpri. Não levei o meu carro, roubei o carro ao meu pai, estacionado em ângulo morto.

A esta distância, sinto que não lhes facilitei a vidinha. Gorei todos os planos que tinham para mim. A minha também não foi facilitada, apesar de ter feito sempre o que quis, nunca nada foi feito como quis: era o fato de treino sobre a minha roupa normal e avisar que chegava tarde, tinha treino de basquete. Era sair com a saia pelo joelho e dar duas ou três voltas no cós para que ficasse dois palmos afastada. Era subornar, com beijinhos, a porteira para que me entregasse o boletim das faltas da escola. Era entrar pela porta, à hora marcada, avisar “já cheguei” e sair pela janela quase no mesmo instante. 

Tudo isto causa uma ansiedade viciante, tudo o que não fosse arriscar não tinha sabor. Nunca fiz nada que os prejudicasse ou envergonhasse. Agradeço todos os valores que me transmitiram, principalmente a minha madrasta. O meu pai era mais cúmplice, compactuava com ela só para não a desautorizar, para a agradar. No fundo, ele queria lá saber. Até dizia, sem orgulho, que eu saía a ele. 

Hoje não há regras, só as sociais. Não há tropas para contrariar. As janelas não substituem as portas. O relógio permanece no braço direito só por hábito. Há a passagem de ano marcada com amigos. E um vazio. Talvez das lembranças que se despediram do presente. A saudade e a solidão emergem como protagonistas, a desconexão com a multidão. A necessidade de contrariar. 

Hotel marcado, Alcobaça. Onde não conheço rigorosamente ninguém. Um desejo: espero que chova… 

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16
Dez23

A consoada...


ROMI

15731726_1334761116555452_4702735024465934072_o.jp     Imagem do meu álbum "Natal na aldeia"

Fechou a porta. Confirmou que tinha o porta moedas no bolso do avental e seguiu pela vereda estreita, com a alcofa das compras pendurada no braço. 

Tinha tudo bem planeado, caso lhe perguntassem, ia passar o Natal com a filha, a Lisboa. Foi o que disse à Alice, a vizinha do lado, quando a convidou para ir passar a consoada com eles. Alice tinha a casa cheia, as filhas, os dois genros e os 3 netos. 

No caminho encontrou pouca gente, mas a pergunta inevitável surgiu. Uma deu-lhe filhós, para levar à filha. Outra deu-lhe duas farinheiras, uma morcela e uma chouriça. Não teve como recusar. Quando chegou à mercearia já levava a alcofa cheia. Comprou duas caixas de bombons, daqueles caros que a filha gosta. Pediu para embrulhar e escolheu um laço dourado. À pergunta da merceeira, respondeu que ia no dia seguinte, na carreira que passa no bairro às sete e dez. A filha ia esperá-la à estação. Ela própria acreditou no que estava a dizer.

A filha tinha vergonha dela, sabia. Mas percebeu. Os sogros eram muito finos, uns senhores. E muito bem prontos. Eram doutores, como a filha e o genro, que também era doutor, mas engenheiro. Sabiam comer de faca e garfo e falavam como os senhores da televisão. Ela sabia assinar o nome e os números até dez, foi a filha que lhe ensinou. Àh, e gostava de ópera. Olaré, até tinha um gira discos velhinho que o patrão lhe tinha dado, quando se apercebeu que ela gostava de ópera. Porque quando ouvia aquelas músicas ela parava o que estava a fazer e encostava o ouvido à porta. Também lhe deu um disco dos grandes e prometeu outro, que nunca chegou a dar. Mas não lhe levou a mal, há pessoas que gostam de dizer que fazem coisas que depois não fazem. 

Com estes pensamentos chegou a casa. Tinha de adiantar alguma coisa para comer no dia seguinte, de modo a não fazer barulho, não fosse a vizinha aperceber-se. As paredes parecem de papel, ouve-se tudo de uma casa para a outra. O pior era não poder acender o lume, por causa do fumo a sair da chaminé. Mas tinha muitos cobertores para se agasalhar, que tinha comprado num leilão, lá para os lados de Alpedrinha. Não podia ligar o aquecedor elétrico que às vezes o quadro ia abaixo. E não se podia esquecer de se despedir da vizinha. Que sorte ter-se lembrado deste pormenor.

No dia seguinte, encerrou tudo como se realmente fosse de abalada. Passou a maior parte do tempo deitada, quase às escuras, entrava uma réstia de luz pela telha de vidro que tinha na cozinha. Nem fome tinha. Tentou comer um bombom da filha, mas soube-lhe a lágrimas.

De vez em quando ouvia o telefone da vizinha tocar. Ela nunca quis telefone, a filha já tinha gasto dinheiro nos óculos e nos dentes novos, a que nunca se habituou, e não quis dar-lhe mais essa despesa. 

Quase oito da noite. Batem-lhe à porta. -” Ó Lena, abre ca gente sabe que tás aí. Ligou a tua filha a desejar um bom Natal e o ti Flipe disse que hoje não houve camenete da carrêra. Anda comer para irmos à missa do galo”.

Acendeu a luz, calçou os sapatos de domingo, embrulhou-se no xale de lã grossa que lhe cobriu a cabeça e respondeu ao apelo de quem lhe queria bem.

Nunca soube se tinha esgotado as lágrimas, se estava demasiado feliz para chorar. 

 

Olhou para os vizinhos e viu anjos.

Ignorou a saudade e chamou-lhe Natal.

 

II

 

Na manhã seguinte, dia de Natal, Lena acordou e o sentimento de culpa acordou com ela. Tinha enganado as pessoas da aldeia. O orgulho ferido impediu-a de dizer a verdade.  Assumir perante todos que a filha não queria passar o Natal com ela, estava muito além do que o amor próprio poderia suportar. Quis devolver as ofertas para a filha. Justificar-se, dizer que não quis que ficassem tristes por ela.

Claro que toda a gente  percebeu e perdoou, num misto de empatia e compaixão. E Lena respirou de alívio. Recusou gentilmente os convites para o almoço de Natal. Já estava em paz e tinha a comida que sobrara do dia anterior. 

A aldeia estava deserta, imensos carros estacionados nos lugares por norma vazios, indicavam a deslocação da família que vivia longe. 

Acendeu o lume, desta vez não poupou na lenha, sentou-se ao quentinho e rezou o terço. 

Páram dois carros no largo em frente à casa. O coração bate forte. Agarra-se ao terço com mais força quando lhe batem à porta. A filha, o genro, os senhores e um casal novo  que não conhecia.

E ela ali, sem os sapatos de domingo, nem o xaile a cobrir-lhe o avental. O abraço interminável da filha. O abraço confortável do genro. Os senhores, no cumprimento moderado e educado. O outro casal , filho e nora dos senhores, mais descontraídos e informais. 



A filha, nas véspera desse dia, liga para a Alice, a desejar um feliz Natal e pede para falar com a mãe. A Alice, admirada, consegue balbuciar que supostamente a mãe teria ido passar o Natal com ela. No mesmo instante, ambas percebem a situação.

Perante o desconforto da nora, os senhores, ficam verdadeiramente incomodados, e reprovam a atitude. A consoada decorre sem o glamour habitual. Mas a senhora tem a solução. Embalar tudo o que está na mesa, mais o adiantado para o dia seguinte, e almoçar com a Lena no dia de Natal.

 

A senhora, em chique, com as unhas muito bem arranjadas, de salto alto, a contrastar com as pantufas da Lena, em gesto snob, tapa ao de leve os lábios com a as pontas dos dedos, sempre que sorri com algo na boca. A Lena, feliz, sempre que ri, tapa a cara com a dobra do braço, talvez para encobrir a falta de dentes, talvez para mostrar à filha que nada poderá mudar a sua essência, por  muita vergonha que isso lhe provoque. 

Sentiu uma ponta de ciúme, quando a filha lançou à sogra um olhar terno, cheio de gratidão. 

Lena nunca soube de quem tinha sido a iniciativa do almoço de Natal em família, atribuiu à filha. 

A senhora, que era doutora e falava como os senhores da televisão, deixou-a ficar nessa ilusão. 

 

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